terça-feira, 18 de abril de 2023

Jornalismo e Educação: uma oportunidade de aprendizagem

Tays Paulino acredita que uma comunicação feita de forma errada pode gerar muitos problemas. / Divulgação.


No dia 28 de abril comemora-se o Dia Mundial da Educação. Apesar da ONU considerar a data 24 de janeiro, como o Dia Internacional da Educação, há 23 anos, líderes de 164 países, incluindo o Brasil, se reuniram no Fórum Mundial da Educação, na cidade de Dakar, no Senegal, firmando compromissos, por meio da "Declaração de Dakar - Educação para Todos - 2000"  para garantir melhorias na educação que satisfaça suas necessidades básicas de aprendizagem, no melhor e mais pleno sentido do termo, e que inclua aprender a aprender, a fazer, a conviver e a ser. Ainda de acordo com o documento, uma educação que se destina a captar os talentos e potencial de cada pessoa e desenvolver a personalidade dos educandos para que possam melhorar suas vidas e transformar suas sociedades.

Nesta entrevista, convidamos a estudante de Jornalismo e assistente de secretaria no Pré-Vestibular Popular Construção, em Manguinhos, Tays Paulino, para nos contar sobre a importância, os desafios e as oportunidades dos estudos acadêmicos para uma profissionalização da Comunicação no Terceiro Setor.

Tays possui Licenciatura em Letras: Português e Árabe e é graduanda em Jornalismo, ambos pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ela é, também, estagiária do setor de marketing e comunicação na Prumo Logística.

Confira a entrevista, a seguir.

Gecom: O que a incentivou a estudar Jornalismo?

Tays Paulino: Sempre quis fazer jornalismo e nunca percebi claramente. Na verdade, demorei muito tempo para saber. Lembro que, quando era criança, adorava brincar que estava apresentando um programa de TV e que sempre gostei muito de escrever também, de lidar com as palavras. Inclusive, com 10 anos participei de um concurso de leitura na escola e ganhei a medalha de primeiro lugar. Outra coisa que gostava muito era de criar várias histórias na minha cabeça e, com certeza, isso já era um sinal de proximidade com a área da comunicação. 

Depois, comecei a gostar do universo do audiovisual. Passei a "cobrir eventos", como aniversários, casamentos e assim fui me tornando a pessoa responsável por isso nas festas de amigos mais próximos em que estava presente  (tirava fotos, fazia aqueles vídeos de homenagem, etc). Esses foram os sinais que se apresentaram e eu ainda não tinha percebido. Quando entrei no Ensino Médio, fui fazer Técnico em Administração. No começo fiquei muito atraída por esse campo da Administração, mas depois comecei a pensar em cursar História, Direito e então cheguei no Jornalismo. Fiquei numa dúvida cruel entre os cursos na época do vestibular, mas acabou que não consegui nota para ingressar em uma universidade pública, que era o meu objetivo. Então, resolvi estudar algo que fosse o mais parecido possível e, para mim, esse curso era o de Letras. Fiz pensando no Jornalismo e com todas as pesquisas acadêmicas voltadas para ele. Depois que terminei (após a Licenciatura em Letras), fiz o vestibular novamente para Jornalismo e "cá estou".


Gecom: Em sua opinião, como a formação acadêmica na área de Jornalismo pode colaborar para o profissionalismo da Comunicação no Terceiro Setor?

Tays Paulino: Acredito que a formação seja essencial para qualquer área em que você vá trabalhar com comunicação e com pessoas - uma formação voltada para a Comunicação em si ou de Jornalismo mesmo, falando especificamente da área. E o Terceiro Setor, assim como os outros, é muito importante e precisa ter a mesma relevância que os outros setores têm. Então,  creio que pensar numa profissionalização dessa área seja algo muito válido; ter um olhar diferenciado sobre as pessoas que trabalham com o voluntariado, com o social, e entender que uma formação, em qualquer meio, precisa ser valorizada. Principalmente na área de Comunicação, porque, se ela for feita de uma forma errada, pode gerar muitos problemas. Por isso, é preciso pensar nisso com muita responsabilidade. Inclusive, hoje a gente vive a não exigência do diploma e isso precariza muito a área. Quando a gente fala do Terceiro Setor, talvez precarize mais ainda, mas acredito que os gestores das áreas sociais devem valorizar e olhar para isso não com uma ideia de exclusão, mas com a proposta de ter uma pessoa capacitada e preparada para exercer aquela função.

Tays Paulino acredita que uma comunicação feita de forma errada pode gerar muitos problemas. / Divulgação.

Gecom: Quais os desafios acadêmicos você encontra no Jornalismo quando se fala no Terceiro Setor e o quê sugere para resolver essas questões?

Tays Paulino: Acredito que o maior desafio seja ter mais pessoas dispostas a fazer trabalhos no Terceiro Setor. E como a Comunicação, o Jornalismo em si, está vivendo esse período de grande desvalorização, com salários muito baixos, creio que outros setores acabem absorvendo mais os profissionais. Hoje temos mil exigências sobre você ter que ter habilidades de outras áreas, muitas vezes de um designer, de um publicitário, para exercer um único cargo, e isso acaba refletindo no Terceiro Setor em termos de remuneração. Em relação à graduação propriamente dita, penso que falta um olhar maior para a questão social. Você não encontra, por exemplo, disciplinas que falem de Comunicação no Terceiro Setor, sobre jornalismo independente, jornalismo voltado para as áreas sociais. Você tem aquelas grades mais comuns, mas você não encontra disciplinas um pouco mais específicas. São temas que têm dificuldade para chegar na Academia. E, para mudar, é preciso levar esses temas para lá. Colocar, por exemplo, matérias sobre jornalismo comunitário. Não estou dizendo que as faculdades não oferecem, não posso falar por todas, mas, de maneira geral, acredito que não sejam temas tão comuns.

Na UFRJ, neste semestre, abriu uma disciplina muito interessante sobre jornalismo de acessibilidade. Não consegui horário pra fazer, mas achei muito interessante a universidade trabalhar esse conceito de "jornalismo para todos". Para mim, é esse o caminho. É preciso oferecer formação. Além de, claro, o próprio profissional buscar essas especializações alternativas.

Gecom: Conte sobre seu trabalho no Pré-Vestibular Popular Construção, em Manguinhos.

Tays Paulino: Eu trabalho no Pré-Vestibular Popular Construção. Estou desde maio do ano passado. Mês que vem faz um ano e tem sido muito recompensador. Sou ex-aluna do Pré. Em 2013, entrei no segundo semestre e fiquei só de agosto a dezembro. Foi uma experiência tão legal, tão enriquecedora. Eu senti que, apesar do pouco tempo que fiquei, consegui aprender muito. Os professores são muito engajados. Um ambiente legal, mesmo.  Nunca esqueci disso. Acabei entrando no Pré, assumindo uma vaga na secretaria para trabalhar com as questões mais burocráticas e dando um apoio aos alunos, quase dez anos depois de ter passado pelo Pré. Hoje, eu faço esse apoio aos alunos. Por exemplo, vai ter uma prova da Uerj, vai ter inscrição, mobilizamos os alunos, olhando documentação, explicando para eles o que tem que fazer, quais documentos, olhando questões de presença, se eles estão lá ou não estão.


Tays durante uma visita de campo com a turma do Pré-Vestibular Construção - 2022. / Divulgação.

Já em relação a Comunicação em si, acabei assumindo as redes sociais em maio do ano passado. Quando eu entrei, o Instagram tinha mais ou menos 750 seguidores. Achei uma rede muito potente, que não podia ficar parada, e aí surgiram ideias de como trabalhar e o que trabalhar em um um Pré-vestibular Social. Inclusive a minha formação em Letras me ajudou muito e minha nova formação (em Jornalismo) também - na parte de pensar o que comunicar, como comunicar e qual a melhor forma de engajar os alunos. Comecei a planejar temas que fossem da realidade deles. Isso ia desde assuntos que estavam rolando nas aulas, dicas de temas de temas que eles viram nas disciplinas, de filmes que poderiam ajudar, e temas relacionados ao vestibular até passeios gratuitos, acesso a museus, coisas que poderiam trazer enriquecimento cultural, porque a sala de aula está em todos os lugares e você precisa ter uma formação sociocultural. Inclusive, o Enem pede muito isso, uma formação sociocultural. E como você vai ter essa formação? Acessando lugares, conhecendo e tendo uma formação além da relação professor x sala de aula x caderno x internet.. Expandindo. Então  trouxe esses temas numa linguagem que eles conseguissem se identificar, se engajar e que conecta-se com eles.

Com minha formação em Letras, consegui formular como que iria trazer um texto legal, forte e correto, além de conseguir pensar em como entraria nesse universo da Educação. Já com o Jornalismo, entendi as estratégias de como alcançar esse público, trazer uma notícia consistente.

Hoje, a nossa rede social cresceu muito. Ela tem 1.060 seguidores, só no Instagram. Eu considero um grande número, comparando com um ano atrás. Um grande avanço. E fico muito feliz por ter conseguido isso. Claro, contando com o apoio de toda equipe; da minha colega que divide a secretaria comigo. Todo mundo ajuda. Outra coisa que é bacana também é a a liberdade que consegui de movimentar, e criar uma identidade, fazer uma coisa de um jeito que eu achava que funcionaria - e todo mundo comprou a ideia. O que mais gosto nisso tudo é de trazer essa sensação de pertencimento e de engajamento do Pré. A gente está fazendo um trabalho com educação forte, potente. O Pré tem 21 anos. É muita história. Estamos no Instagram, no Facebook e vamos cada vez mais longe porque a educação tem que chegar em todos os lugares possíveis, de todas as formas. E se a rede social é uma ferramenta para isso, por que não utilizá-la?

Facebook: Tays Paulino

Instagram: @tays_ps

Compartilhe experiências e amplie conhecimentos!

 

  Siga no Instagram 

Acompanhe mais no Instagram @gecomterceirosetor


Curte lá no Facebook.com/gecomterceirosetor

terça-feira, 28 de março de 2023

Especializações em Comunicação que contribuem para a cultura e memória da comunidade

 

As especializações podem criar conexões e inspirações para quebrar estigmas e preconceitos para que surjam mais iniciativas sociais. / Divulgação.

"Nunca é demais lembrar que o homem é um ser social, que constrói a si próprio ao mesmo tempo em que constrói, junto com os outros homens, a sociedade e sua história."

A citação acima, do livro Gerenciando conhecimento, de Jayme Teixeira Filho, se encaixa perfeitamente ao perfil do jornalista, fotógrafo, escritor e professor Thiago Kuerques.

Formado em Turismo (UFRRJ), Jornalismo (UNESA), Letras (UFF), pós-graduado em Turismo Sustentável (CEFET) e mestrando em Educação, Cultura e Comunicação em Periferias (UERJ), Thiago vê em suas especializações uma oportunidade pra registrar, contar e valorizar a memória de seu bairro, Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Atualmente, realiza estágio na Escola Municipal Padre Agostinho Pretto, em Nova Iguaçu, como professor de literatura e incentivo à leitura e produz oficinas de escrita sensível, escrita criativa e escrita periférica. Thiago é assessor de imprensa na EncontrArte Audiovisual e jornalista no Site da Baixada.

Também é autor dos livros Território (2017), A Balada do Esquecido (2018), A Próxima Pandemia (2019), Tordesilhas (2021) e Vezenquando (2022), entre outras antologias. Conquistou prêmios literários, entre os quais Prêmio Baixada e Prêmio Trema 2021 e 2022.


Confira, a seguir, como a formação em jornalismo e o mestrado estão contribuindo para a construção de sua própria história e de sua comunidade.


Gecom: Como a formação acadêmica na área de jornalismo colabora para o profissionalismo da Comunicação no Terceiro Setor?


Thiago Kuerques: Sou nascido em 1985, em Nova Iguaçu, Baixada Fluminense. É o meu tempo e lugar no mundo. Família de classe média com inúmeras dificuldades financeiras e emocionais. Meu caminho é pelas artes, pelo conhecimento e pelas relações sociais. Estudar a comunicação é uma das ferramentas para colaborar com o enaltecimento e organização dessa casa ainda desorganizada. Em outras palavras, me especializar é criar formas, conexões e inspirações para que aqui - ou ser daqui - possa ser menos difícil, seja o sonho que exista em qualquer pessoa.

Profissionalizar a Comunicação especificamente no Terceiro Setor ajuda a quebrar estigmas, preconceitos e faz com que mais iniciativas possam aparecer. Um país com tantos talentos, tanto material e tanta arte não pode ter tantas dificuldades como tem o Brasil.


Jornalista, professor e autor de livros sobre pessoas, memórias, educação e comunicação de um subúrbio melhor. / Divulgação.



Gecom: O que o motivou e quais são suas expectativas com o mestrado em Comunicação em Periferias Urbanas?


Thiago Kuerques: O mestrado surgiu de uma inquietação: como um lugar que teimo em tentar valorizar, com população maior que o Uruguai e tantos outros países, com efervescência cultural, não se entende, não possui um veículo grande de comunicação e fica refém do que oferecem vindo da capital? Às vezes, migalhas. Se há uma mínima cobertura positiva falam "Hoje tem Baixada no RJTV, vamos ver".

Não pode ser algo isolado. Sem contar a memória social que é algo que me incomoda muito. Muita gente não sabe de onde veio, a história do seu bairro, da sua cidade. Há uma constante sensação de ineditismo por dois motivos: por ausências, muita coisa ainda está sendo realizada pela primeira vez; por falta de conhecimento e arquivamento de memória, poucas sabem o que já existiu na região.

Acredito que o caminho é longo. É um trabalho como cidadão também, não apenas como comunicador, escritor, professor e pesquisador. Seja através das histórias que conto no Site da Baixada, nas aulas que faço ou na literatura, tudo é social e tudo contribui. Penso em realizar, por exemplo, alguma forma nova de comunicação que impacte de verdade as pessoas da Baixada Fluminense. Também penso em fazer projetos que me permitam doar livros com frequência, por exemplo. Que não seja só com livros, mas com música, dança, educação. Comunicar a Baixada Fluminense para a própria Baixada Fluminense. Sem atravessadores, sabe?


O mestrado em Comunicação faz o jornalista e professor vislumbrar uma valorização da identidade e território na Baixada Fluminense. / Divulgação.



Gecom: Conte sobre como são as palestras de incentivo à leitura que você realiza em bibliotecas comunitárias e escolas públicas.


Thiago Kuerques: As minhas palestras em bibliotecas comunitárias começaram lá em 2017 com a rede Baixada Literária, em Nova Iguaçu. Através da Mônica Verdam, uma das líderes dessa rede, grande personalidade e que já está marcada na história de tanta gente, fui apresentado a bibliotecas estabelecidas em casas clássicas de subúrbio, todas descentralizadas.

Bibliotecas em Vila de Cava, Santa Rita, Ponto Chic, Jardim Primavera, Morro Agudo, Austin, Rancho Fundo e Bairro Amaral, por exemplo, habitam locais com pouca ou nenhuma presença de equipamentos culturais. Mesmo que minha literatura seja madura, falo com crianças e adolescentes sobre autoestima através da arte, importância da leitura com paralelos mais realistas que algum imaginário romântico da literatura. Livro é saúde, vida, sobrevida e oportunidade. Toda vez que visitei uma biblioteca comunitária dando palestra ou oficina achando que estava ensinando, acabei aprendendo muito mais. Já reencontrei gente que era muito nova quando visitei em 2017 alguma biblioteca. Adolescente que trilha o caminho do sonho da universidade, por exemplo. Isso se deve a vários fatores complexos e também à existência de uma biblioteca comunitária com livros acessíveis, múltiplos. Iniciativa privada e social.


Thiago realiza oficinas e palestras de incentivo à leitura e à escrita na Baixada Fluminense. / Divulgação.



Gecom: Fale sobre seu último livro, o romance Tordesilhas. De onde vem sua inspiração para escrever seus livros? Tem alguma nova obra em mente?


Thiago Kuerques: Tordesilhas é meu último livro físico, uma novela (ou romance) sobre a relação de pai e filha com idas e vindas emocionais, lúdicas e realistas durante uma vida inteira num bairro sereno de Nova Iguaçu. Minha inspiração veio da vontade de fazer prosa poética com o tema paternidade, usando literatura, sociologia e educação como fios condutores. É um livro bonito, inspirador, engraçado e representa o que é ser sonhador e apaixonado pela vida mesmo com dificuldades naturais de ser periférico.

Escrevi recentemente o livro Vezenquando, um ensaio sobre o ano de 2022 usando estudos que faço, reflexões sobre o cotidiano e pequenas ficções. Tudo com uma perspectiva otimista. Talvez seja um livro que eu tenha feito para minha versão mais sombria, uma forma de me convencer de que a depressão pode ser encarada de formas mais sensíveis e que assim é possível seguir vivo.

Sou um escritor que tem mil histórias e muitos rios narrativos coexistindo sempre. Talvez venha um novo romance sobre dois sujeitos de idades muito distintas em busca de seus lugares no mundo, cada um à sua maneira. Ou um livro de crônicas (já que escrevo para dois sites: Recorte Lírico e ArtCult). Ou um livro de contos, gênero pelo qual sou apaixonado. Nunca sei, nunca saberei. Quando dobrar a esquina, tem algo novo brilhando por aí sem jamais esquecer de cada obra que me trouxe até aqui.


Thiago Kuerques e seu último livro Tordesilhas, que narra a relação entre pai e filha em uma realidade vivida em Nova Iguaçu. / Divulgação.



Facebook: http://facebook.com.br/thiagokuerques

Instagram: @thiagokuerques

Twitter: @thiagokuerques



Compartilhe experiências e amplie conhecimentos!

 

  Siga no Instagram 

Acompanhe mais no Instagram @gecomterceirosetor


Curte lá no Facebook.com/gecomterceirosetor

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

A formação em Jornalismo como ferramenta estratégica de Comunicação para o Terceiro Setor

 

Karen Melo, jornalista e pesquisadora em Mídias Digitais. 

Jornalista, social media, comunicadora social, produtora, redatora, editora e diretora de audiovisual, com experiência em instituições do Terceiro Setor, são algumas das possibilidades que a formação em Jornalismo oferece e são, também, as experiências da jornalista e pesquisadora em mídias digitais, Karen Melo. 

Com passagens pelo Voz das comunidades; editora na Agência Lupa, Agência de Notícias das Favelas (ANF) e na Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase); assistente de Comunicação no Instituto Raízes em Movimento; social media no Zacimbagaba; assistente de Diversidade Cultural na Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio; e coordenadora do Centro de Referência de Juventude do Alemão (CRJ), atualmente é assistente de Comunicação no Coletivo Papo Reto.

Alinhando conhecimento prático e teórico, juntamente com as experiências vivenciadas no Terceiro Setor, Karen também destaca a importância da formação acadêmica em Jornalismo e o papel estratégico da Comunicação para as ONGs.


Gecom: Por que é importante estudar jornalismo nas faculdades?

Karen Melo: No meu caso, tem toda uma construção em cima de um projeto, de um sonho. Eu sou a primeira geração da minha família a fazer graduação e pós. Nascida e criada no Alemão, eu sempre fui apaixonada por imagens, textos, e na favela você já nasce comunicativo para a sobrevivência. Meus pais não tinham condições de bancar uma faculdade pra mim, foi quando houve um projeto de governo federal, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que tirou algumas casas no território em que eu morava (inclusive a minha) e nesse local, na Praça do Conhecimento, criaram a Nave do Conhecimento, onde ofereciam cursos gratuitos. Fui me aventurar no universo da comunicação, e ali viram em mim um potencial. Fiz fotografia, webdesigner e audiovisual. No final de cada curso, deveríamos entregar um projeto. Meu primeiro projeto de fotografia falava da moda na favela, no qual fui premiada e ganhei uma viagem para Curitiba, para expor na semana de fotografia da cidade.  Meu segundo projeto,  de audiovisual, foi criado por mim e um grupo de amigos que se chamava Gonzagueando, que era a história de migrantes nordestinos para dentro do Complexo do Alemão. Nesse momento, já estava convicta do que eu ia fazer, participando de editais, comprando equipamentos, pegando emprestado, o projeto se tornou Alemão em cena. Foi tão bem estruturado, que a partir desse seguimos em outras favelas. Até que apresentei à Facha meu projeto, eles acolheram e  deram a bolsa de estudos para o grupo.

Eu queria mostrar o olhar das pessoas que moravam ali, o que elas sentiam, o que elas tinham para falar e por diversas situações eram silenciadas. A  comunicação que já existia em mim, aliada do jornalismo que me escolheu, eu consegui de alguma forma fazer a devolutiva, mostrando a realidade das pessoas a partir da narrativa de quem também  já viveu nesses locais.

A faculdade não foi só eu, foram diversas pessoas que me impulsionaram todos os dias para não desistir. Foi uma vontade de ocupar espaços que meus pais não conseguiram, que para muitos foi negado. Uma menina negra, preta e de favela conseguiu. 

O jornalismo abriu diversas possibilidades de trabalhar em Comunicação no Terceiro Setor para Karen Melo. 


Gecom: Como a formação acadêmica na área de jornalismo colabora para o profissionalismo da Comunicação no Terceiro Setor?

Karen Melo: O jornalismo é um leque de possibilidades, você não precisa estar em um balcão em rede nacional na TV pra ser jornalista. Na maioria das vezes, eu atuei no Terceiro Setor, e nele eu sou jornalista, e consigo passar o que eu aprendi, trocar, dialogar. Eu trabalhei por um bom tempo com editais e me lembro que nessa época, tinha um edital chamado Favela Criativa. Meu papel era ler todas as documentações e o storytelling que cada proponente enviava. Em cada projeto reprovado era nítida a falta de alguém de Comunicação para auxiliar essas pessoas a entenderem como seus projetos poderiam ser bem estruturados se tivessem uma comunicação estratégica, não só para editais, mas para ter um portfólio atrativo para captação de recursos diversos, uma rede atraente e harmônica. Tudo isso precisa ser pensado e tudo isso é pesado quando algum projeto do Terceiro Setor precisa ser visto. No projeto Zacimbagaba, eu trago dentro da oficina de Comunicação Estratégica para o Terceiro Setor a reflexão do que as mulheres querem e precisam para seus projetos, pensar desde o público alvo até às cores que serão usadas e que tipo de informação elas vão passar, como vão construir a imagem desse projeto. É muito bacana porque quando estamos juntas as ideias fluem, as perspectivas mudam.


Gecom: Quais são as descobertas que você gostaria de compartilhar em suas pesquisas dentro da Comunicação no Terceiro Setor?

Karen Melo: Posso dizer que dentro do campo onde eu atuo, o Terceiro Setor está se consolidando na entrega de uma boa Comunicação Estratégica. Temos um longo caminho, mas tenho visto investimentos em sites e mídias em geral para a manutenção e resistência desses espaços. As ONGs têm buscado trazer seus mantenedores ou investidores mais próximos. Não é somente doar, é trazer para perto, é fazer a prestação de contas, dizendo : “Teu recurso está sendo para investir nisso”. Usando cada vez mais vídeos, fotos, textos de qualidade. 

Nascida e criada no Alemão, atualmente é assistente de Comunicação do Coletivo Papo Reto. 


Gecom: Conte como é o trabalho na instituição que você está atualmente.

Karen Melo: Eu trabalho no Coletivo Papo Reto que pauta direitos humanos em diferentes frentes de atuação. Fazemos isso pensando a educação, a comunicação, a arte e a cultura como ferramentas que possam garantir que todas as pessoas moradoras de favelas e periferias tenham conhecimentos diversificados sobre garantia plena de direitos em toda sociedade. Hoje contamos com uma estrutura que permite ampliar o campo de ação, com espaço de aulas, reuniões e administrativo que fortalece nossas ações no campo dos direitos humanos, educação e cidadania favelada. 


Instagram: @karencmelo

Linkedin: https://www.linkedin.com/in/karen-melo-8153ab156/




Compartilhe experiências e amplie conhecimentos!

 

  Siga no Instagram 

Acompanhe mais no Instagram @gecomterceirosetor


Curte lá no Facebook.com/gecomterceirosetor

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

Relações Públicas: a importância da formação acadêmica para o profissionalismo da Comunicação no Terceiro Setor

Maria Helena Carmo, doutora e mestra em Comunicação.

Instituições do Terceiro Setor precisam atentar para a construção e manutenção de sua imagem, reputação, relacionamentos diante de um cenário atualmente bastante complexo com a proliferação de fake news, impulsionada pelas mídias sociais. O ensino de técnicas de Relações Públicas contribui para que estudantes de Comunicação possam atuar de forma profissional e competente no Terceiro Setor.

O Gecom convidou a doutora em Comunicação, Maria Helena Carmo, que também é mestra em Comunicação e Cultura, graduada em Relações Públicas e em Letras, para explicar a importância de uma formação acadêmica na Comunicação, que possa contribuir para a profissionalização da área no Terceiro Setor.


Atualmente, Maria Helena é professora de Gestão Empresarial e Políticas de Comunicação, Comunicação Interna, Relacionamento com Cliente, TCC 1 e TCC 2 nas Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha) e professora de Planejamento de Eventos e Cerimonial, Produção de Eventos e Assessoria de Comunicação, na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Maria Helena, também, é coautora do livro "Megaeventos, Comunicação e Cidade", ao lado dos coautores Ricardo Freitas e Flávio Lins.


Gecom: Por que é importante ensinar relações públicas nas faculdades?


Maria Helena: A gente está vivendo há umas duas décadas a era do relacionamento, muito por conta do crescimento das redes sociais e do quanto elas acabam sendo um desafio para as organizações. Antes das redes sociais você tinha organizações pautando o que os clientes, os funcionários, o que a opinião pública  iria saber das organizações das marcas. Com as redes sociais você tem o inverso disso. Você tem funcionários, potenciais funcionários, ex-funcionários falando sobre a organização, recomendando a organização, criticando a organização, pressionando a organização, os clientes, também, o que não diria da opinião pública. Você tem marcas hoje sendo questionadas: "por que elas fazem publicidade em um veículo de comunicação que faz campanha aberta contra atos antidemocráticos?". E questionam a marca: "Você jura que vai continuar patrocinando, anunciando nesse canal de TV?". Então, as marcas, as pessoas públicas, as celebridades, as formadoras de opinião estão muito expostas. Relações Públicas está neste lugar. No lugar de pensar no relacionamento das empresas, das marcas, de pessoas públicas, perante os seus públicos de interesse e de que forma a imagem, a reputação dos clientes, agências de relações públicas, profissionais de relações públicas, como ajudar a gerenciar essas imagens e essas reputações. Ter uma faculdade de Relações Públicas é ter um profissional mais antenado com a comunicação, que é cada vez mais desafiadora, cada vez mais pressiona marcas, empresas por posicionamentos.


Então, Relações Públicas fazer parte do currículo de graduação é a possibilidade de pensar a Comunicação da forma mais ampla possível, o que alguns autores chamam de uma comunicação mais integrada mesmo. Um olhar que não é só de mercado, marketing, vendas, mas um olhar institucional, também, sem jamais esquecer o público interno. Pensar a Comunicação mais alinhada com os tempos desafiadores que a gente vive, aglutinando os interesses e as necessidades de marketing, jornalismo ou publicidade, sempre com foco o relacionamento. Relações Públicas é na sua essência gestão de relacionamentos.


"Relações públicas é na sua essência gestão de relacionamentos", Maria Helena Carmo.



Gecom: Como a formação acadêmica na área de relações públicas colabora para o profissionalismo da Comunicação no Terceiro Setor?


Maria Helena: Eu fico muito feliz que na Facha, onde nos últimos seis ou sete anos talvez, eu venho percebendo um aumento no interesse de alunos de Relações Públicas em atuar no Terceiro Setor. Nós temos inclusive uma disciplina de Comunicação no Terceiro Setor, é uma área muito desafiadora. Sempre se pensou muito a Comunicação sendo mais profissionalizada nas empresas privadas, em seguida uma profissionalização das empresas públicas e o Terceiro Setor (porque é o mais "jovem" que o primeiro e o segundo setor) vem se profissionalizando nos últimos 15 ou 20 anos e os desafios são imensos. Essa profissionalização depende de um cenário não só internacional, mas um cenário nacional. A gente teve um crescimento, uma profissionalização do Terceiro Setor, se a gente colocar um marco de instituições voltadas para o meio ambiente, talvez em 1992, com a Rio 92, tenha sido um marco para a profissionalização do Terceiro Setor, não só no Brasil, mas também a nível mundial. A gente teve também uma certa pressão pela profissionalização no Terceiro Setor, fortemente na década de 90, por causa da explosão do número de pessoas com a Aids. Então, eu lembro que tivemos um grande número de instituições voltadas para a prevenção do HIV e apoio a esses pacientes. Na virada do século XXI, você tem uma questão muito ligada à saúde, principalmente à saúde infantil. Instituições do Terceiro Setor fortemente envolvidas na prevenção de saúde, de apoio às crianças que estejam em tratamento cardíaco ou com câncer, instituições voltadas à educação, muitas no esporte… E nos últimos anos, não só no Brasil, mas também no mundo inteiro, teve um determinado momento de enfraquecimento em algumas pautas no Terceiro Setor, por causa de questões mais econômicas e políticas internacionais.


O Terceiro Setor exige muito uma parceria com a iniciativa privada, pública e doadores de pessoas físicas. A questão de financiamento no Terceiro Setor via parceria com instituições públicas, privadas e doadores de pessoas físicas é absolutamente fundamental. Você tem que saber fazer um projeto, captar recursos, fazer relacionamento, fazer prestação de contas... Então, em algumas áreas do Terceiro Setor houve um enfraquecimento, seja no esvaziamento de políticas públicas (e aí estou falando no cenário nacional mesmo), seja pela exigência de profissionalização do Terceiro Setor, que também foi impulsionada por uma necessidade das empresas financiadoras demonstrarem o impacto na sociedade dos projetos sociais que elas apoiam ou patrocinam. Isso torna essencial para a profissionalização no Terceiro Setor, que passa pela profissionalização da Comunicação. Tanto na Uerj, quanto na Facha há uma disciplina especificamente para pensar esse setor, essas competências, habilidades, ferramentas necessárias para atuar nessa área.


Maria Helena e Flávio Lins, coautores do livro "Megaeventos, Comunicação e Cidade".



Gecom: Quais os desafios acadêmicos para lecionar relações públicas e quais as propostas sugeridas para resolver essas questões?


Maria Helena: Um é a questão da proliferação das fake news, que é também um desafio da Comunicação. A gente está num cenário de disputa por uma criação de narrativas que não são necessariamente narrativas, são informações falsas. É muito complicado você trabalhar. Talvez seja o cenário mais difícil para área de Comunicação. Trabalhar no cenário em que as fake news são disseminadas de um forma algoritmica, em progressão geométrica, a capacidade de desmentir as fake news, atribuir às fake news, é complicado. A princípio, em Comunicação, seja relações públicas ou em jornalismo, a gente trabalha para sugestões de pautas que sejam positivas e as fake news colocam por terra essa premissa. Dependendo para qual instituição você está trabalhando, acaba enxugando gelo. Vê uma fake news, você tem que desmentir, dizer que é fake e, provavelmente, você não vai conseguir alcançar a mesma velocidade, o mesmo impacto que essa informação trouxe para um grupo o qual ela parece ser verdadeira. As fake news criam narrativas muito contrastantes e paralelas e fazer pontes em um cenário radicalizado, muito polarizado é muito difícil para o jornalismo e para a relações públicas.


Um outro desafio, que também está muito ligado às fake news, é tentar equilibrar. Algo que é fundamental quando se pensa a Educação, a necessidade de dominar e conhecer as ferramentas que a cada hora é uma nova, ou uma nova possibilidade  dentro da mesma ferramenta com leituras que são absolutamente essenciais para o processo da Comunicação. Então, hoje você tem que responder muito rapidamente às demandas externas e internas, pensa muito na questão ferramental e muitas vezes você faz sem pensar exatamente por que está fazendo, naquele determinado momento, sem ter tempo para pensar ou refletir. Ou então, seu tempo é muito curto, muito rápido. Isso exige um planejamento e exige uma formação filosófica, sociológica, antropológica de comunicação e consumo se você trabalha com uma questão ligada ao marketing, questões éticas que demandam estudo, tempo, leitura, amadurecimento. Equilibrar uma questão de uma teoria que é absolutamente fundamental para uma prática responsável da Comunicação, ao mesmo tempo que você precisa dar conta do ferramental, eu acho que é um grande desafio da área e da educação, um  segmento da Comunicação.


Trabalhar o marketing de causa social e mobilizar pessoas foram desafiadores e uma experiência interessante para Maria Helena Carmo. 



Gecom: Conte como foi sua experiência em trabalho voluntário.


Maria Helena: Já fiz alguns trabalhos voluntários ligados à questões de crises sociais e ambientais. Momentos em que você tem desastres ambientais no Brasil e você tem uma mobilização para recursos materiais ou financeiros, já atuei com isso especificamente. Trabalhei, não como comunicadora, mas foi um desafio, porque eu trabalhei para uma assessoria de uma rede de fast food, que tem uma grande campanha voltada para arrecadação de recursos para a fundação que dá suporte para crianças e adolescentes em tratamento de câncer. Durante algum tempo, fiquei focada nesse projeto. E foi interessante, porque ao mesmo tempo que fazia uma comunicação desta rede de fast food, eu fazia de certa forma da fundação. E eu procurava falar mais da fundação que leva o nome da rede, voltada para a causa em si. Porque de certa maneira, você acaba falando de uma questão que é o marketing de causa social, que é a principal ação dessa rede para captar recursos através desse planejamento de assessoria da qual eu fazia parte. Foi muito legal trabalhar com essa questão ligada ao marketing de causa e eu trabalhei especificamente com relação à comunidade. Projetos sociais, projetos culturais que envolviam a comunidade, a opinião pública e o grande evento social, que era esse dia voltado para a arrecadação.  Foi um projeto interessante, mobilizar pessoas para participar da campanha. Mobilizar esportistas, apresentadores de telejornal, artistas, personalidades públicas de uma forma geral que dava conta de que essas pessoas se engajassem no dia do evento indo a uma determinada loja, indo a um determinado restaurante exatamente para ajudar nesse engajamento. Então, isso foi bem legal.


Instagram: @mhelenacarmo

LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/mariahelenacarmo/



Compartilhe experiências e amplie conhecimentos!

 

  Siga no Instagram 

Acompanhe mais no Instagram @gecomterceirosetor


Curte lá no Facebook.com/gecomterceirosetor