
Enquanto esteve no Brasil, o italiano Francesco Masi atuou como educador e voluntário em comunicação no Projeto Luar de Dança. / Divulgação
Francesco Masi é italiano, educador, bacharel em Ciências Internacionais do Desenvolvimento e da Cooperação e mestre em Economia Internacional e Gestão. Permaneceu no Brasil por quase um ano, entre 23 de setembro de 2025 e 6 de setembro de 2026. Neste período, antes de retornar à Itália, atuou como voluntário em comunicação no Projeto Luar de Dança, iniciativa que oferece aulas de dança para crianças e jovens em vulnerabilidade social, contribuindo para a transformação de comunidades periféricas por meio de vivências artístico-culturais em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.
Confira a vivência do educador Francesco no Brasil e dicas valiosas para um trabalho de comunicação de impacto social.
Gecom: O que o motivou a atuar como voluntário de comunicação e doar seu tempo para um projeto social como o Projeto Luar, tão longe de casa?
Francesco: A parceria entre o Projeto Luar e a Itália já existe há 25 anos, por meio do Serviço Civil Universal, um programa que oferece a jovens entre 18 e 30 anos a oportunidade de realizar uma experiência de um ano em associações e organizações em diferentes partes do mundo, contribuindo com projetos sociais como o Projeto Luar.
No meu caso, o interesse pelo Brasil nasceu a partir de uma experiência de intercâmbio e, principalmente, de um estágio que fiz no Rio de Janeiro em 2023. Foi nesse período que comecei a criar uma relação muito forte com o país e com a cidade, mas também surgiu em mim a vontade de conhecer um Rio de Janeiro mais real, mais raiz, para além daquilo que normalmente é conhecido por quem chega de fora.
Por isso, quando surgiu a possibilidade de participar do Serviço Civil Universal, quis encontrar uma experiência que me permitisse não apenas voltar ao Brasil, mas vivenciar uma realidade diferente e me colocar diretamente a serviço de uma comunidade.
O Projeto Luar me oferecia justamente essa oportunidade: atuar em uma região periférica da Baixada Fluminense, em Jardim Primavera, Duque de Caxias, e colocar à disposição da comunidade os conhecimentos e as habilidades que havia desenvolvido ao longo da minha trajetória acadêmica e profissional.
Acho que esse também foi um dos aspectos que mais me motivaram. Muitas pessoas que vêm de fora acabam conhecendo principalmente a Zona Sul e o Centro do Rio, que são regiões muito importantes, mas que não representam toda a diversidade e a complexidade da cidade e da sua região metropolitana. Eu queria sair desse circuito e conhecer de perto outras realidades, entendendo diretamente suas necessidades, seus desafios e também suas potencialidades.
Então, mais do que simplesmente voltar ao Brasil, eu queria participar ativamente de um projeto social e viver essa experiência na prática. Foi isso que me levou ao Projeto Luar e que acabou transformando uma experiência que inicialmente seria de um ano em uma parte muito importante da minha trajetória, tanto profissional quanto pessoal.
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| Proximidade, criatividade e capacidade de fazer comunicação com os recursos que existem foram alguns aprendizados que Francesco aprendeu na ONG. / Divulgação |
Gecom: Falando especificamente da comunicação: que estratégias e materiais você criou para fortalecer o trabalho do Projeto Luar? E como usou a criatividade para comunicar superando barreiras como o idioma e a falta de recursos?
Francesco: Um dos elementos que procurei trazer para a comunicação do Projeto Luar foi, principalmente, a minha experiência e paixão pelas redes sociais e pela forma como elas conseguem se comunicar com diferentes públicos. A partir do acompanhamento de tendências, formatos e da própria lógica de funcionamento das plataformas, buscamos adaptar alguns desses elementos à realidade do Projeto Luar, sem perder a identidade e a autenticidade do projeto. Isso permitiu, em diferentes momentos, criar engajamento, interação e proximidade com o público e, principalmente, transmitir a mensagem central de um projeto social como o Luar: a ideia de criar e fortalecer uma comunidade por meio das suas atividades e iniciativas.
Ao mesmo tempo, sempre achei muito importante mostrar às pessoas que estão por trás do projeto. Não apenas quem participa das atividades como beneficiário, mas também quem dá vida ao Luar todos os dias, criando oficinas, organizando atividades e construindo relações dentro daquele espaço. São essas pessoas que, para mim, representam o verdadeiro motor do projeto. Por isso, buscamos dar cada vez mais espaço para elas na comunicação, por meio de entrevistas, fotografias, vídeos e reels, mostrando não apenas o resultado final das atividades, mas também todo o processo e os bastidores da sua preparação. A ideia era mostrar o Luar de uma forma mais humana, através das histórias e das pessoas que fazem parte dele.
Acredito que isso também foi uma maneira de superar algumas das barreiras que encontrei, inclusive o idioma e a limitação de recursos. Em vez de depender de grandes produções ou de uma estrutura profissional de comunicação, procuramos trabalhar com aquilo que já tínhamos à disposição: o celular, as redes sociais, a criatividade e, principalmente, as próprias pessoas do projeto. Muitas vezes, uma boa história, uma conversa ou um momento espontâneo conseguem comunicar muito mais do que uma produção elaborada.
Gecom: Na sua percepção, como a comunicação no Terceiro Setor é vista e praticada no Brasil em comparação com a Itália? O que o Brasil tem a ensinar e o que ainda precisamos aprender com o modelo europeu?
Francesco: Essa é uma comparação que, para mim, só pode ser feita a partir da experiência que vivi no Projeto Luar, porque foi justamente lá que comecei a olhar para a comunicação do Terceiro Setor de uma maneira diferente. Eu cheguei ao Luar trazendo comigo uma formação e experiências anteriores principalmente na Itália, além de uma relação muito forte com as redes sociais e com as novas formas de comunicação digital. Ao mesmo tempo, encontrei uma realidade muito diferente daquela a que estava acostumado: uma organização profundamente ligada ao território, às pessoas e às relações que se constroem dentro da comunidade.
No Luar, percebi que a comunicação muitas vezes já estava acontecendo antes mesmo de existir uma estratégia de comunicação formal. Ela estava nas pessoas, nas atividades, nas relações entre educadores, crianças, adolescentes, famílias e parceiros. Junto com a verdadeira e maravilhosa profissional que é a Cristiane Tatsch que cuida das redes sociais do Projeto, nosso trabalho foi, em grande parte, identificar essas histórias e encontrar formas de transformá-las em comunicação, usando ferramentas que pudessem fazer com que aquilo que acontecia dentro do projeto também chegasse a quem estava fora dele.
Foi aí que percebi algo que considero uma grande contribuição da experiência brasileira: a capacidade de comunicar a partir da comunidade e não apenas sobre a comunidade. No Brasil, encontrei uma comunicação muito mais espontânea, próxima e humana, que consegue utilizar os próprios recursos disponíveis para criar identificação e mobilização.
No caso do Luar, tínhamos pessoas com histórias, atividades acontecendo e uma comunidade muito forte. E isso, por si só, já era uma matéria-prima enorme para a comunicação.
Isso me fez perceber que não precisamos escolher entre uma comunicação mais estruturada e uma comunicação mais espontânea. Pelo contrário: acredito que as duas podem se fortalecer. O Brasil me ensinou muito sobre proximidade, criatividade e capacidade de fazer comunicação com os recursos que existem. A experiência italiana e europeia pode contribuir com ferramentas de planejamento, profissionalização, definição de públicos e avaliação dos resultados da comunicação.
Acho que essa troca é especialmente importante porque a comunicação no Terceiro Setor não deve ser vista apenas como uma forma de divulgar o que uma organização faz. Ela pode ajudar a construir relações com a comunidade, aproximar novos parceiros, mobilizar voluntários, fortalecer a confiança e também contribuir para a sustentabilidade dos projetos. Na Itália, inclusive, os dados mais recentes sobre os entes do Terceiro Setor mostram que as competências de comunicação e redes sociais estão entre as áreas que as organizações consideram prioritárias para se desenvolver.
Por isso, depois de um ano no Luar, eu não diria que um modelo tem que ensinar o outro. Acho que o principal aprendizado está justamente na troca. O Brasil me ensinou a olhar mais para as pessoas que estão por trás de uma causa e a entender que uma comunicação realmente forte pode nascer de dentro da própria comunidade. Espero ter contribuído levando um pouco daquilo que eu já conhecia sobre comunicação digital, planejamento e linguagem das redes.
No final, talvez essa tenha sido uma das maiores lições profissionais que levo do Luar: antes de comunicar um projeto, é preciso conhecê-lo, viver sua realidade e entender as pessoas que fazem parte dele. Só depois podemos pensar na melhor forma de contar essa história.

Para Francesco, a experiência italiana com ferramentas de planejamento, definição de públicos e avaliação dos resultados da comunicação podem contribuir para as ONGs do Brasil. / Divulgação
Gecom: Agora que está de volta à Itália, o que dessa experiência no Brasil fica na sua bagagem, não só profissional, como comunicador, mas também humana?
Francesco: Do ponto de vista profissional, certamente levo comigo a oportunidade de ter conhecido de perto uma realidade que há 36 anos atua no território, que ao longo do tempo cresceu, se fortaleceu e ampliou suas atividades. O Projeto Luar é formado por profissionais com experiências e competências muito diferentes. A dança, sem dúvida, é um dos elementos mais fortes e característicos do projeto, mas, ao longo dos anos, muitas outras áreas e disciplinas passaram a fazer parte dessa realidade.
Por isso, levo comigo uma verdadeira bagagem de profissionais e de pessoas com quem tive a oportunidade de aprender muito. Procurei absorver não apenas habilidades técnicas, mas também formas diferentes de trabalhar, de me relacionar com os outros e, principalmente, de construir comunidade. Porque acredito que uma das maiores forças do Luar não está apenas na capacidade de organizar atividades dentro do próprio projeto, mas na capacidade de criar vínculos e construir uma comunidade que vai muito além daquele espaço. Do ponto de vista humano acho que o que levo comigo é, sobretudo, aquilo que o Brasil, o Rio de Janeiro e o Jardim Primavera passaram a representar para mim: pessoas. Mais do que a dimensão cultural do Brasil, mais do que os lugares que conheci ou as experiências que vivi, foram as pessoas que encontrei ao longo desse caminho que mais me marcaram. As conversas, as histórias, os momentos compartilhados, os encontros e até os silêncios e os olhares. Cada uma dessas experiências me ensinou alguma coisa. Acredito que conhecer essas pessoas, principalmente dentro da realidade de Jardim Primavera, também me deu a oportunidade de conhecer melhor a mim mesmo. Viver durante um ano uma realidade tão diferente daquela que eu conhecia me colocou diante de situações, desafios e relações que me fizeram repensar muitas coisas, tanto pessoal quanto profissionalmente.
Por isso, quando penso na bagagem que estou levando de volta para a Itália, não penso apenas em competências ou experiências profissionais. Penso nas pessoas que conheci, nas histórias que ouvi, nos desafios cotidianos que acompanhei e em tudo aquilo que aprendi simplesmente estando presente e vivendo aquela realidade. Acho que é justamente isso que vou levar comigo por mais tempo: a capacidade de olhar para o outro com mais atenção, de escutar antes de falar e de entender que, por trás de qualquer projeto social, existem sempre pessoas, histórias e relações que dão sentido a tudo aquilo que fazemos.
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