sábado, 26 de setembro de 2026

Como transformar vivência voluntária em estratégia de comunicação: um aprendizado italiano na Baixada Fluminense

Enquanto esteve no Brasil, o italiano Francesco Masi atuou como educador e voluntário em comunicação no Projeto Luar de Dança. / Divulgação

O número de voluntários no Brasil alcançou a marca de 60 milhões de brasileiros ativos, passando de 18% da população em 2001 para 60% em 2026, segundo os dados da Pesquisa Voluntariado no Brasil 2026, realizada pelo Instituto Datafolha. Ainda não há um levantamento específico sobre voluntários estrangeiros que atuam no país. No entanto, as motivações para o voluntariado são comuns entre brasileiros e estrangeiros, como ser solidário, fazer a diferença, retribuir o que se recebeu ou melhorar a autoestima.


Francesco Masi é italiano, educador, bacharel em Ciências Internacionais do Desenvolvimento e da Cooperação e mestre em Economia Internacional e Gestão. Permaneceu no Brasil por quase um ano, entre 23 de setembro de 2025 e 6 de setembro de 2026. Neste período, antes de retornar à Itália, atuou como voluntário em comunicação no Projeto Luar de Dança, iniciativa que oferece aulas de dança para crianças e jovens em vulnerabilidade social, contribuindo para a transformação de comunidades periféricas por meio de vivências artístico-culturais em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.


Confira a vivência do educador Francesco no Brasil e dicas valiosas para um trabalho de comunicação de impacto social.


Gecom: O que o motivou a atuar como voluntário de comunicação e doar seu tempo para um projeto social como o Projeto Luar, tão longe de casa?


Francesco: A parceria entre o Projeto Luar e a Itália já existe há 25 anos, por meio do Serviço Civil Universal, um programa que oferece a jovens entre 18 e 30 anos a oportunidade de realizar uma experiência de um ano em associações e organizações em diferentes partes do mundo, contribuindo com projetos sociais como o Projeto Luar.


No meu caso, o interesse pelo Brasil nasceu a partir de uma experiência de intercâmbio e, principalmente, de um estágio que fiz no Rio de Janeiro em 2023. Foi nesse período que comecei a criar uma relação muito forte com o país e com a cidade, mas também surgiu em mim a vontade de conhecer um Rio de Janeiro mais real, mais raiz, para além daquilo que normalmente é conhecido por quem chega de fora.


Por isso, quando surgiu a possibilidade de participar do Serviço Civil Universal, quis encontrar uma experiência que me permitisse não apenas voltar ao Brasil, mas vivenciar uma realidade diferente e me colocar diretamente a serviço de uma comunidade.


O Projeto Luar me oferecia justamente essa oportunidade: atuar em uma região periférica da Baixada Fluminense, em Jardim Primavera, Duque de Caxias, e colocar à disposição da comunidade os conhecimentos e as habilidades que havia desenvolvido ao longo da minha trajetória acadêmica e profissional.


Acho que esse também foi um dos aspectos que mais me motivaram. Muitas pessoas que vêm de fora acabam conhecendo principalmente a Zona Sul e o Centro do Rio, que são regiões muito importantes, mas que não representam toda a diversidade e a complexidade da cidade e da sua região metropolitana. Eu queria sair desse circuito e conhecer de perto outras realidades, entendendo diretamente suas necessidades, seus desafios e também suas potencialidades.


Então, mais do que simplesmente voltar ao Brasil, eu queria participar ativamente de um projeto social e viver essa experiência na prática. Foi isso que me levou ao Projeto Luar e que acabou transformando uma experiência que inicialmente seria de um ano em uma parte muito importante da minha trajetória, tanto profissional quanto pessoal.


Proximidade, criatividade e capacidade de fazer comunicação com os recursos que existem foram alguns aprendizados que Francesco aprendeu na ONG. / Divulgação


Gecom: Falando especificamente da comunicação: que estratégias e materiais você criou para fortalecer o trabalho do Projeto Luar? E como usou a criatividade para comunicar superando barreiras como o idioma e a falta de recursos?


Francesco: Um dos elementos que procurei trazer para a comunicação do Projeto Luar foi, principalmente, a minha experiência e paixão pelas redes sociais e pela forma como elas conseguem se comunicar com diferentes públicos. A partir do acompanhamento de tendências, formatos e da própria lógica de funcionamento das plataformas, buscamos adaptar alguns desses elementos à realidade do Projeto Luar, sem perder a identidade e a autenticidade do projeto. Isso permitiu, em diferentes momentos, criar engajamento, interação e proximidade com o público e, principalmente, transmitir a mensagem central de um projeto social como o Luar: a ideia de criar e fortalecer uma comunidade por meio das suas atividades e iniciativas.


Ao mesmo tempo, sempre achei muito importante mostrar às pessoas que estão por trás do projeto. Não apenas quem participa das atividades como beneficiário, mas também quem dá vida ao Luar todos os dias, criando oficinas, organizando atividades e construindo relações dentro daquele espaço. São essas pessoas que, para mim, representam o verdadeiro motor do projeto. Por isso, buscamos dar cada vez mais espaço para elas na comunicação, por meio de entrevistas, fotografias, vídeos e reels, mostrando não apenas o resultado final das atividades, mas também todo o processo e os bastidores da sua preparação. A ideia era mostrar o Luar de uma forma mais humana, através das histórias e das pessoas que fazem parte dele.


Acredito que isso também foi uma maneira de superar algumas das barreiras que encontrei, inclusive o idioma e a limitação de recursos. Em vez de depender de grandes produções ou de uma estrutura profissional de comunicação, procuramos trabalhar com aquilo que já tínhamos à disposição: o celular, as redes sociais, a criatividade e, principalmente, as próprias pessoas do projeto. Muitas vezes, uma boa história, uma conversa ou um momento espontâneo conseguem comunicar muito mais do que uma produção elaborada.


Gecom: Na sua percepção, como a comunicação no Terceiro Setor é vista e praticada no Brasil em comparação com a Itália? O que o Brasil tem a ensinar e o que ainda precisamos aprender com o modelo europeu?


Francesco: Essa é uma comparação que, para mim, só pode ser feita a partir da experiência que vivi no Projeto Luar, porque foi justamente lá que comecei a olhar para a comunicação do Terceiro Setor de uma maneira diferente. Eu cheguei ao Luar trazendo comigo uma formação e experiências anteriores principalmente na Itália, além de uma relação muito forte com as redes sociais e com as novas formas de comunicação digital. Ao mesmo tempo, encontrei uma realidade muito diferente daquela a que estava acostumado: uma organização profundamente ligada ao território, às pessoas e às relações que se constroem dentro da comunidade.


No Luar, percebi que a comunicação muitas vezes já estava acontecendo antes mesmo de existir uma estratégia de comunicação formal. Ela estava nas pessoas, nas atividades, nas relações entre educadores, crianças, adolescentes, famílias e parceiros. Junto com a verdadeira e maravilhosa profissional que é a Cristiane Tatsch que cuida das redes sociais do Projeto, nosso trabalho foi, em grande parte, identificar essas histórias e encontrar formas de transformá-las em comunicação, usando ferramentas que pudessem fazer com que aquilo que acontecia dentro do projeto também chegasse a quem estava fora dele.


Foi aí que percebi algo que considero uma grande contribuição da experiência brasileira: a capacidade de comunicar a partir da comunidade e não apenas sobre a comunidade. No Brasil, encontrei uma comunicação muito mais espontânea, próxima e humana, que consegue utilizar os próprios recursos disponíveis para criar identificação e mobilização.


No caso do Luar, tínhamos pessoas com histórias, atividades acontecendo e uma comunidade muito forte. E isso, por si só, já era uma matéria-prima enorme para a comunicação.


Isso me fez perceber que não precisamos escolher entre uma comunicação mais estruturada e uma comunicação mais espontânea. Pelo contrário: acredito que as duas podem se fortalecer. O Brasil me ensinou muito sobre proximidade, criatividade e capacidade de fazer comunicação com os recursos que existem. A experiência italiana e europeia pode contribuir com ferramentas de planejamento, profissionalização, definição de públicos e avaliação dos resultados da comunicação.


Acho que essa troca é especialmente importante porque a comunicação no Terceiro Setor não deve ser vista apenas como uma forma de divulgar o que uma organização faz. Ela pode ajudar a construir relações com a comunidade, aproximar novos parceiros, mobilizar voluntários, fortalecer a confiança e também contribuir para a sustentabilidade dos projetos. Na Itália, inclusive, os dados mais recentes sobre os entes do Terceiro Setor mostram que as competências de comunicação e redes sociais estão entre as áreas que as organizações consideram prioritárias para se desenvolver.


Por isso, depois de um ano no Luar, eu não diria que um modelo tem que ensinar o outro. Acho que o principal aprendizado está justamente na troca. O Brasil me ensinou a olhar mais para as pessoas que estão por trás de uma causa e a entender que uma comunicação realmente forte pode nascer de dentro da própria comunidade. Espero ter contribuído levando um pouco daquilo que eu já conhecia sobre comunicação digital, planejamento e linguagem das redes.


No final, talvez essa tenha sido uma das maiores lições profissionais que levo do Luar: antes de comunicar um projeto, é preciso conhecê-lo, viver sua realidade e entender as pessoas que fazem parte dele. Só depois podemos pensar na melhor forma de contar essa história.


Para Francesco, a experiência italiana com ferramentas de planejamento, definição de públicos e avaliação dos resultados da comunicação podem contribuir para as ONGs do Brasil. / Divulgação


Gecom: Agora que está de volta à Itália, o que dessa experiência no Brasil fica na sua bagagem, não só profissional, como comunicador, mas também humana?


Francesco: Do ponto de vista profissional, certamente levo comigo a oportunidade de ter conhecido de perto uma realidade que há 36 anos atua no território, que ao longo do tempo cresceu, se fortaleceu e ampliou suas atividades. O Projeto Luar é formado por profissionais com experiências e competências muito diferentes. A dança, sem dúvida, é um dos elementos mais fortes e característicos do projeto, mas, ao longo dos anos, muitas outras áreas e disciplinas passaram a fazer parte dessa realidade.


Por isso, levo comigo uma verdadeira bagagem de profissionais e de pessoas com quem tive a oportunidade de aprender muito. Procurei absorver não apenas habilidades técnicas, mas também formas diferentes de trabalhar, de me relacionar com os outros e, principalmente, de construir comunidade. Porque acredito que uma das maiores forças do Luar não está apenas na capacidade de organizar atividades dentro do próprio projeto, mas na capacidade de criar vínculos e construir uma comunidade que vai muito além daquele espaço. Do ponto de vista humano acho que o que levo comigo é, sobretudo, aquilo que o Brasil, o Rio de Janeiro e o Jardim Primavera passaram a representar para mim: pessoas. Mais do que a dimensão cultural do Brasil, mais do que os lugares que conheci ou as experiências que vivi, foram as pessoas que encontrei ao longo desse caminho que mais me marcaram. As conversas, as histórias, os momentos compartilhados, os encontros e até os silêncios e os olhares. Cada uma dessas experiências me ensinou alguma coisa. Acredito que conhecer essas pessoas, principalmente dentro da realidade de Jardim Primavera, também me deu a oportunidade de conhecer melhor a mim mesmo. Viver durante um ano uma realidade tão diferente daquela que eu conhecia me colocou diante de situações, desafios e relações que me fizeram repensar muitas coisas, tanto pessoal quanto profissionalmente.


Por isso, quando penso na bagagem que estou levando de volta para a Itália, não penso apenas em competências ou experiências profissionais. Penso nas pessoas que conheci, nas histórias que ouvi, nos desafios cotidianos que acompanhei e em tudo aquilo que aprendi simplesmente estando presente e vivendo aquela realidade. Acho que é justamente isso que vou levar comigo por mais tempo: a capacidade de olhar para o outro com mais atenção, de escutar antes de falar e de entender que, por trás de qualquer projeto social, existem sempre pessoas, histórias e relações que dão sentido a tudo aquilo que fazemos.



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sexta-feira, 26 de junho de 2026

O poder da identidade visual no terceiro setor

O designer e ilustrador Reinaldo Lee desenvolve trabalhos de identidade visual para o terceiro setor e empresas com profissionalismo, criatividade e qualidade. / Crédito: Daniel Teixeira


Símbolos, cores e tipografia são alguns dos elementos que formam a identidade visual de uma marca. No terceiro setor, onde diversas ONGs buscam visibilidade, ter uma identidade forte e memorável é fundamental. Ela profissionaliza a instituição, transmite confiança e atrai pessoas que se identificam com a causa defendida.

Uma comunicação visual bem definida, quando aplicada em diferentes plataformas — site, blog ou redes sociais —, evita o uso incorreto das cores, facilita a criação de mensagens e impacta diretamente na captação de recursos.

Para explicar na prática como todo esse processo se aplica ao terceiro setor, o designer e ilustrador Reinaldo Lee, formado em Desenho Industrial pela PUC-Rio, conta um pouco da sua experiência e dá dicas essenciais para o desenvolvimento de um trabalho de impacto. Confira!


Gecom: Qual a importância da identidade visual para ONGs, coletivos e projetos sociais?

Reinaldo Lee: Tem a mesma importância ou até maior do que para empresas e profissionais liberais: ser facilmente reconhecida visualmente por seu logo, símbolos, suas cores, sua tipografia representando suas características e reputação. Se a ONG ou projeto social tem uma identidade e missão fortes que possam ser traduzidas graficamente, isso facilita a identificação e o relacionamento com os diversos grupos de interesse: participantes, comunidade e parceiros. A lógica difere um pouco das empresas por não ter um apelo comercial forte, mas é importante para transmitir a mensagem de que a ONG é séria, organizada e oferece serviços de qualidade.


Gecom: Você desenvolveu um projeto recente com uma rede de artesãs em São João da Barra. Quais foram os principais desafios e aprendizados ao criar a identidade visual para este grupo?


Reinaldo Lee: Sim. Na verdade, esse projeto foi realizado por mim, em conjunto com um escritório de design de Niterói, a Oster Design. Foi em 2020, por meio de uma iniciativa da organização social Rede Asta, para fomentar a cultura criativa dessa rede de artesãs de diversas técnicas e ampliar o conhecimento e a mentalidade empreendedora da comunidade. Os principais desafios de um projeto desse tamanho eram representar essas diferentes técnicas — de mais de 50 artesãs — em uma única marca. Conseguimos fazer reuniões e entrevistas com algumas artesãs e representantes da Rede Asta, que nos deram alguns direcionamentos. O objetivo principal, porém, era traduzir o conceito de rede criativa para essa comunidade, e não apenas focar em uma técnica ou em outra. O resultado final foi uma mistura de tipografia manuscrita, com foco no trabalho manual e artístico do processo de criação, acompanhada de um grafismo que remete a uma rede de pesca, já que uma das principais atividades da região é a pesca, assim como os temas de muitas obras criadas pelas artistas da cidade, que utilizam conchas, pedras e outras matérias-primas como base de seus trabalhos.

Conviver, ouvir as diferentes visões e perspectivas das artesãs sobre o próprio trabalho e o que cada uma tinha a dizer sobre a região, a técnica ou as lutas de trabalhar com o que ama e para sustentar sua família foi bem gratificante. Poder retribuir de alguma forma com meu trabalho, valorizando o delas, foi uma recompensa maior do que qualquer pagamento.

Identidade visual criada por Reinaldo Lee para a Rede Asta, em parceria com a Oster Design.


Gecom: Na sua visão, como a inteligência artificial está mudando o trabalho dos designers?


Reinaldo Lee: Na verdade, assim como qualquer outra revolução tecnológica de outras épocas, a inteligência artificial não muda o trabalho dos designers. Desde a criação de programas digitais, da internet e agora da I.A. o mundo do design e da ilustração sempre parece ficar ameaçado, mas todas essas novidades não passam de ferramentas que serão melhor aproveitadas quanto melhor o designer conhecer o seu próprio processo de criação. A I.A. auxilia, assim como a internet auxiliava em busca de referências, em mostrar oportunidades ou em mesclar várias ideias e apresentar um resultado. Mas esse resultado nunca poderá ser considerado o projeto final do design. É preciso um olhar cuidadoso e criterioso sobre como essas referências podem ser trabalhadas pelo designer. No meu caso, utilizo a I.A. como ponto de partida (em algumas ocasiões) para projetos mais complexos ou que envolvem muitas variáveis. A inteligência artificial pode reduzir o tempo de alguns processos mais trabalhosos ou manuais, mas a criação vai ser sempre melhor quando originada da mente humana. Temos que nos ver como diretores de arte dessa “colaboradora” chamada I.A.


Gecom: Que dica prática você daria para uma ONG pequena que não tem verba, mas precisa melhorar sua identidade visual?


Reinaldo Lee: Uma dica é procurar junto ao grupo ou à comunidade que está envolvida, pessoas ou profissionais que tenham essa vontade de colaborar ativa e criativamente com a ONG. Profissionais que possam indicar ou conhecer algum estudante de Comunicação ou Design para desenvolver esse trabalho. Para um resultado mais profissional, a ONG pode tentar contatos com escritórios de pequeno ou médio porte que se interessem em fazer o projeto de Identidade visual e logo no formato pro bono, ou seja, sem custo, desde que se identifiquem com a causa e queiram genuinamente participar dessa criação.


Não sei se muitas ONGs precisam de um projeto de identidade visual para serem percebidas e respeitadas na sociedade. Mas existem alguns profissionais que se identificam e gostam de fazer projetos dessa natureza (eu me incluo entre eles) para desenvolver o trabalho criativo e ao mesmo tempo colaborar com um setor que faz um trabalho com muita dedicação, respeito e altruísmo sem perder o profissionalismo.


Para Reinaldo Lee, a inteligência artificial deve ser usada como auxiliar durante o processo criativo e nunca como o projeto final do design. / Crédito: Marcia Moreira




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terça-feira, 26 de maio de 2026

IA no Terceiro Setor: Como usar inteligência artificial na comunicação sem perder a humanidade

 

Iana Brando possui experiência em inteligência artificial com aplicação no audiovisual. / Divulgação

A inteligência artificial está revolucionando o nosso dia-a-dia em uma velocidade que jamais pudéssemos imaginar, principalmente em nosso ambiente de trabalho. Hoje utiliza-se uma ferramenta de IA, amanhã já nasce uma diferente ou até melhor. Se não existir uma para determinada tarefa, aguarde um instante que logo, logo se cria uma. A revolução está diante de nossos olhos e o Terceiro Setor não pode ficar para trás. Aprender a utilizar a inteligência artificial na comunicação para as instituições sociais está se tornando um diferencial entre elas. O ambiente do audiovisual tem sido a área mais impactada na área da comunicação, em se tratando de produção de conteúdo. No entanto, não podemos deixar de produzir conteúdos humanizados e nos tornarmos “comunicadores artificiais”.


A entrevista, a seguir, é justamente sobre esse cuidado com o uso da inteligência artificial no trabalho dos comunicadores para o Terceiro Setor.


Iana Brando é técnica em comunicação no projeto Cria RJ e responsável por planejar, produzir e executar estratégias de comunicação para divulgar ações, fortalecer a imagem institucional e garantir uma comunicação eficiente com o público. Em sua trajetória, atuou na ONG Capacitrans como filmmaker, produzindo conteúdo audiovisual para o documentário “Transformando na Moda 3” e foi produtora executiva da “Marcha Trans & Travesti RJ”. Confira o que Iana Brando compartilhou nesta entrevista.


Gecom: O que despertou o gosto pelo audiovisual e o que te mantém atuando e inovando como filmmaker e criadora de conteúdo nas redes sociais?


Iana Brando: O meu interesse no audiovisual começou quando eu entendi que para além de uma fotografia ou filmagem, o audiovisual capta memórias, sentimentos e a forma que cada profissional dessa área enxerga o mundo. O que me mantém nessa área é principalmente como eu me expresso para o mundo e a forma que eu me comunico com ele através da minha essência e olhar.


Gecom: Durante a atuação na ONG Capacitrans, quais foram os principais aprendizados e desafios de produzir conteúdo audiovisual em um contexto de impacto social?


Iana Brando: Eu aprendi dentro da comunidade trans que pra gente passar nossa dor e luta para o mundo temos que abordar isso de forma mais cômica, mas também de forma sensível para que a gente saia do lugar de vitimismo e passe a mostrar o lado feliz da vida e da luta também. Isso tudo conseguimos passar no trabalho de audiovisual visual que fiz para Capacitrans!


Na opinião de Iana, unir inteligência artificial e o audiovisual é o caminho para dar voz e visibilidade à luta trans. / Divulgação


Gecom: De que forma a inteligência artificial contribui para a produção audiovisual dentro das ONGs?


Iana Brando: Ajuda a mostrar de uma forma mais lúdica ou realista o que a ONG quer passar ou qual o objetivo dela em relação ao seu projeto. Também ajuda muito na questão administrativa se você precisar de um suporte ou algo do tipo. Hoje em dia, a inteligência artificial facilita muito os trâmites que antigamente levavam dias ou semanas para serem executados. Nos dias atuais, levam apenas algumas horas ou minutos!


Gecom: Para comunicadores do Terceiro Setor que utilizam ou pretendem incorporar inteligência artificial em suas produções, quais são as recomendações éticas, técnicas e criativas para garantir eficiência sem abrir mão do propósito da causa?


Iana Brando: A inteligência artificial deve ser encarada como uma ferramenta de apoio e não como substituta da sensibilidade humana que está no centro do trabalho do Terceiro Setor. Para comunicadores que já utilizam ou pretendem incorporar IA em suas produções, o primeiro cuidado precisa ser ético: ter transparência sobre esse uso, revisar com atenção os conteúdos gerados e evitar a reprodução de vieses ou informações fora de contexto que possam comprometer a credibilidade e a integridade da causa.


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segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Comunicação estratégica no Terceiro Setor: preparando-se para 2026

Luiza Claro acredita que o investimento em Comunicação é o principal desafio das ONGs para superar o acúmulo de funções e se destacarem no ambiente digital. / Crédito: Sophia Vogel



A comunicação no Terceiro Setor passa por um momento de profundas transformações. Com a crescente demanda por transparência e responsabilidade, além das novas tecnologias e a pulverização de informações, as ONGs precisam se comunicar de forma eficaz para alcançar seus objetivos. Em entrevista exclusiva, a analista de comunicação Luiza Claro, compartilha suas perspectivas sobre as tendências e desafios da comunicação no Terceiro Setor em 2026. Descubra, na entrevista a seguir, como as organizações podem se preparar para o futuro e alcançar resultados incríveis.


Gecom: Como você vê a evolução da Comunicação no Terceiro Setor nos últimos anos e quais são as principais tendências para 2026?


Luiza Claro: A comunicação no Terceiro Setor amadureceu muito. Antes, a comunicação era vista mais como apoio: fazer post, divulgar ação, dar visibilidade à causa e à ONG, por exemplo.

O desafio em comum dos comunicadores era conseguir ter o reconhecimento que a comunicação precisa ser estratégica, parte do planejamento da organização.

Para 2026, vejo uma comunicação ainda mais integrada ao todo da ONG, muito conectada a dados, impacto e relacionamento.

Menos campanha solta e mais construção de comunidade, com formatos mais dinâmicos e foco em mostrar processos e resultados.


Gecom: Quais são os principais desafios que as ONGs enfrentam em termos de Comunicação em 2026 e como você acredita que eles podem ser superados?


Luiza Claro: O principal desafio continua sendo o investimento. É comum ainda ver equipes pequenas e acúmulo de funções. Entendo que isso se supera com priorização e estratégia.

Outro ponto forte é a dificuldade de se destacar num ambiente digital saturado.

Não é preciso publicarmos em todas as redes se não é estratégico para organização, mas é possível adaptar o mesmo conteúdo para diferentes formatos.

Também vejo um grande potencial no uso inteligente de ferramentas para otimizar processos e ganhar fôlego.


Para a analista de comunicação, a inteligência artificial é uma aliada, principalmente, para organizações que têm poucos recursos. / Crédito: Sophia Vogel


Gecom: Como a Inteligência Artificial está impactando a Comunicação no Terceiro Setor e quais são as oportunidades e desafios que elas apresentam?


Luiza Claro: Eu vejo a IA como uma aliada, principalmente, para organizações que têm poucos recursos.

Quando bem usada, pode ser um apoio para organizar ideias, estruturar conteúdos, analisar dados e ganhar tempo. Isso libera o profissional de comunicação para pensar de forma mais estratégica e humana.

Ao mesmo tempo, existe o desafio de não perder autenticidade. Comunicação no Terceiro Setor é sobre pessoas e histórias reais, então precisamos ter um olhar sensível.

Reforço que nem tudo o que a IA produz precisa e deve ser usado. Temos que refletir se está alinhado com os valores da ONG e se condiz com o objetivo da mensagem.

Para mim, o caminho é usar a IA como apoio, mas manter a atenção e o lado crítico nas respostas entregues por ela.


Gecom: Quais são as habilidades e competências que um profissional de Comunicação no Terceiro Setor precisa ter em 2026 para ser bem-sucedido?


Luiza Claro: Para mim, mais do que dominar ferramentas, esse profissional precisa conhecer bem a organização que trabalha. Entender a causa, o impacto, o público e como a comunicação se conecta com os beneficiários, a captação, os programas e o voluntariado.

Também vejo como essenciais: capacidade de análise de dados, adaptação a diferentes formatos por conta dos multicanais que trabalhamos hoje e, principalmente, aprender a transmitir transparência. No Terceiro Setor, para comunicar é preciso gerar confiança e credibilidade primeiro.

Em 2026, quem conseguir unir estratégia, tecnologia e humanidade vai se destacar.






 

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