O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2022) registra 14,4 milhões de pessoas com deficiência no país, sendo 2,6 milhões com dificuldades para ouvir. Estima-se que em 2025, cerca de 10 milhões de pessoas no Brasil tenham algum tipo de deficiência auditiva. Esses dados demonstram que ações efetivas de promoção da acessibilidade no audiovisual se tornam essenciais para que essas mesmas pessoas sintam-se incluídas na sociedade.
Entre maio e junho, a produtora audiovisual e cultural Thaís Ribeiro organizou a oficina Acessibilidade e Inclusão no Audiovisual na cidade do Rio e de Niterói, em parceria com a antropóloga e coordenadora pedagógica do projeto Bianca Arruda, para promover a reflexão e o debate sobre a necessidade de tornar os conteúdos audiovisuais mais acessíveis, bem como ampliar a representação de pessoas com deficiência (PCD) tanto nas telas quanto na produção de seus conteúdos.
Na entrevista a seguir, Thaís, que é formada em jornalismo e criadora da Luzidio Produções, conta como o audiovisual pode ser trabalhado no Terceiro Setor para promover uma comunicação inclusiva.
Gecom: Qual foi o caminho que te levou a trabalhar com a comunicação inclusiva para a comunidade surda?
Thaís Ribeiro: Sou formada em jornalismo, mas sempre trabalhei como produtora audiovisual. Trabalhei na TV Brasil por muitos anos e depois fui trabalhar na TV INES - o primeiro canal brasileiro para surdos, totalmente produzido em Libras, pelo Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES). Também fiz trabalhos freelancers para a TV Escola, uma empresa de audiobook, uma produtora de recursos de acessibilidade e para a TV Cultura, onde roteirizei videoaulas para alunos surdos da rede municipal de educação de São Paulo. Atuei a maior parte da minha carreira como produtora, mas a partir de 2019 comecei a atuar também como assistente de direção, roteirista e produtora cultural.
Quando eu trabalhava na Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto (Acerp), que era a responsável por gerir a TV Brasil, me chamaram para fazer parte da equipe do projeto da TV INES. Daí ele deu certo e cresceu bastante dentro da comunidade surda, estreando no dia 24 de abril de 2023, dia da Lei de Libras. A TV INES ficou no ar por oito anos e, infelizmente, acabou em 2021. A TV do instituto me introduziu no universo da comunicação inclusiva e, certamente, mudou meu olhar.
Gecom: De que forma a comunicação inclusiva pode contribuir para os resultados de uma ONG?
Thaís Ribeiro: A comunicação inclusiva é fundamental em todos os aspectos na sociedade. Além disso, a comunicação inclusiva amplia o público que pode acessar e interagir com as atividades da organização, criando mais oportunidades de engajamento, voluntariado e captação de recursos. Outro ponto importante é que ela ajuda a construir vínculos mais sólidos com as comunidades atendidas, uma vez que estas se veem representadas e respeitadas, o que gera maior participação social.
Ao adotar práticas inclusivas, seja no uso de linguagem acessível, na produção de materiais em diferentes formatos (Libras, audiodescrição, legendas), a ONG promove a valorização da diversidade cultural e a inclusão de narrativas que representem grupos historicamente marginalizados. Dessa forma, a organização demonstra coerência entre discurso e prática, consolidando sua credibilidade diante de parceiros, financiadores e beneficiários. Ou seja, investir em comunicação inclusiva é não apenas uma questão ética, mas também estratégica, pois aumenta a efetividade da missão da ONG e favorece resultados mais consistentes.
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O ciclo de palestras e oficinas sobre acessibilidade no audiovisual promoveu aprendizados e reflexões aos produtores audiovisuais e culturais. / Crédito: Márcio Biriba |
Gecom: Em sua opinião, quais são os desafios da comunicação inclusiva no terceiro setor e quais seriam as soluções para resolvê-los?
Thaís Ribeiro: Em primeiro lugar, é fundamental investir em acessibilidade atitudinal com o intuito de sensibilizar e ampliar o repertório sobre diversidade e inclusão junto às equipes que atuam no terceiro setor, especialmente no tocante à população com deficiência. Acredito que outros debates já estejam bem evoluídos, como os debates étnico-raciais e de gênero, porém quando falamos em acessibilidade e inclusão, ainda parecemos ter um longo caminho a percorrer. E, com certeza, o primeiro passo é conviver com pessoas com deficiência, dar espaço para que elas próprias possam falar sobre si, sobre as faltas e as potências que cada um carrega. Além disso, é premente investir em capacitação de profissionais que atuem nessa área; além de fomentar um mercado de trabalho - o que é essencial para uma verdadeira autonomia -, amplia-se o acesso e o convívio de pessoas com e sem deficiência, promovendo um verdadeiro compartilhamento do espaço e da comunidade.
Entretanto, muitas vezes as ações de acessibilidade não estão inclusas no orçamento das organizações, que geralmente também enfrentam dificuldades na captação de recursos para manter suas atividades finais. Acredito que o primeiro desafio nesse caso seja entender que a inclusão e as atividades necessárias para que ela se concretize devam ser pensadas como elemento fundamental no projeto, desde sua concepção e não apenas ao final do processo (como algumas vezes acontecem) ou, ainda pior, apenas quando solicitadas. Acredito que um caminho necessário seja incluir pessoas com deficiência nas equipes atuantes da ONG, com participação nas tomadas de decisão da organização. Investir em diversidade e equidade na própria equipe assegura que a inclusão esteja também no centro da missão da ONG, produzindo um ambiente e projetos menos assimétricos nesse quesito.
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