sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Você sabe quem foi Betinho?

"Semana Betinho: 20 anos de lembranças e saudades". Encontro organizado pelo Ibase, no Sindicato dos Jornalistas - RJ.


Em 1997, quando eu estava na 7ª série do Ensino Fundamental (hoje 8º ano), a professora de Português perguntou à turma, “Vocês sabem quem foi Herbert de Souza?” Silêncio na sala. Ela, então, fez outra pergunta. “E o Betinho? Vocês conhecem ou já ouviram falar dele?” Alguns começaram a balbuciar como se “ah, esse, sim”. Foi quando ela escreveu no quadro e explicou que ambos eram a mesma pessoa. Logo, veio em minha mente a imagem de um prato de alumínio vazio e o comercial que era transmitido na televisão sobre a campanha de combate à fome e à miséria. Então, veio a tarefa dada pela professora. Pesquisar sobre “Qual a importância política da pessoa Herbert de Souza (Betinho)?”, com data de entrega para 19 de agosto daquele ano.

Anotação feita no caderno com data de entrega da pesquisa.
Naquela época, a internet era precária e poucas pessoas tinham acesso à rede web. Ter um computador era um privilégio para poucos. Recorri ao jornal. Vale lembrar que eu não tinha o hábito da leitura diária e só lia a sessão de futebol. O jornal que eu consegui tinha uma matéria especial sobre o Betinho. Não lembro, em detalhes, sobre o que escrevi, mas sei que boa parte do trabalho foi a transcrição literal dos textos do jornal.

Edição especial do jornal com a matéria "Adeus, Betinho". Fonte de pesquisa.

Capa da edição especial.
Alguns textos consegui fazer uns cortes, retirando as opiniões e montando um texto mais objetivo - o que chamamos de edição. Confesso que tinha a vontade de recortar o jornal e colar direto no trabalho só pra terminar. No entanto, ao ler tanta coisa feita e o que era dito sobre ele despertavam em mim a curiosidade em conhecê-lo mais e fazer algo melhor. Pensei, “o trabalho está parecendo com o jornal. Vou escrever sobre o que penso sobre isso tudo”. Mais uma vez não recordo quais palavras usei para escrever o texto final. O título era uma interrogação. Algo como, “O que será do amanhã?” ou “O que será do futuro?”. Nele, questionei sobre quem cuidaria de seus trabalhos? A família, a equipe que trabalhou tantos anos ao seu lado, as pessoas que foram influenciadas por ele estariam dispostas em manter suas ações? E o governo estaria disposto a apoiar sua causa? Apesar da dor da perda, a luta não deveria parar. As ações deveriam continuar e aqueles que assumissem os trabalhos deveriam realizar o que ele gostaria de ter feito, mesmo que houvesse forças contrárias (não foram com essas palavras que escrevi, mas eram exatamente o que eu pensava).

O trabalho estava pronto. Não sabia se tinha escrito alguma bobagem, mas escrevi assim mesmo e  trabalho foi entregue. A professora veio até mim e veio perguntar justamente sobre o último texto que estava diferente do restante do trabalho. Ela ficou surpresa (e eu mais ainda) porque não tinha encontrado outro texto opinativo na turma e não esperava ler um daqueles. Ela até gostou e aprovou. Era como se eu tivesse mergulhado na história de um dos maiores ativistas sociais da época sem ter tido nenhum contato.

Infelizmente não encontrei o trabalho. Procurei em todos os lugares. Não sei se ele foi junto com outros que ficavam guardados em uma pasta que achei estarem seguros dentro do porão no quintal de casa. Devido à umidade no local em que ficavam guardados, muita coisa estragou e tive que desfazer de alguns trabalhos (chora, chora).

Curiosamente, reencontrei a edição especial do jornal alguns dias antes de começar a “Semana Betinho: 20 anos de lembranças e saudades”, evento que aconteceu de 7 a 9 deste mês, organizado pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), no Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro.

Você pode conferir como foi o encontro no Instagram @gecomterceirosetor ou no link https://www.facebook.com/ibase.br/.

Encontro reuniu convidados e antigos parceiros de trabalho e de mobilizações para lembrar a memória de Betinho.

Durante a “Semana”, encontrei pessoas maravilhosas que conviveram na luta com Betinho. Ali, tive a certeza de que meu interesse e a minha influência pelo terceiro setor, pela causa social se deviam às ações que ele plantou na sociedade. As campanhas contra à fome, doações de alimentos e roupas tudo eu associava à imagem dele. Quando passo pelo galpão da Ação da Cidadania, eu vejo o imenso rosto da simplicidade olhando para o céu com ideias de mobilizar as pessoas a mudar o mundo para melhor.

“Se aceitarmos o país que temos, estaremos perdendo nosso tempo, estaremos perdendo nossa esperança”. Betinho

É o símbolo de esperança e luta dos desfavorecidos. É a representação indignada e inquieta que lutou até o fim de sua vida contra a falta de ética na política, a fome, a miséria, a discriminação em todas as suas dimensões e contra a AIDS.

Momentos da vida do sociólogo que mobilizou o Brasil em diversas campanhas por um mundo mais solidário.
Os três dias do encontro fizeram eu relembrar essa história e a vontade de escrever nessa linguagem simples e espontânea para contar a vocês um pouco sobre esse meu envolvimento no terceiro setor.
Eu ainda tenho muito a aprender sobre ativismo cidadão, lutas políticas, midiativismo  e outras séries de coisas mais. Só que eu lhe pergunto, “Você sabe quem foi Herbert de Souza, o Betinho?”.



Agradecimentos especiais à professora que menciono neste post, Aurelice, que fez eu ler cada vez mais e escrever melhor em suas aulas de Português e ao atual diretor-executivo do Ibase, Athayde Motta, que me incentivou a escrever este texto.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Agência de Notícias das Favelas realiza I Encontro Latino-Americano de Comunicação Comunitária


Contribuição da equipe da cobertura colaborativa do ELACC
Encontro Latino-Americano de Comunicação Comunitária
Painel de abertura: Experiências de Comunicação Comunitária na América Latina.
Uma narrativa contada por quem vive e faz a própria história. Assim foi o I Encontro Latino-Americano de Comunicação Comunitária (ELACC), que aconteceu de 06 a 09 de julho, em Niterói (RJ).  O Encontro foi organizado pela Agência de Notícias das Favelas (ANF) e pela Redes de Agentes Comunitários de Comunicação (RACC) em parceria com o Laboratório de Políticas Culturais.

Experiências de quem vive nas favelas, baixada fluminense e periferias da América Latina foram discutidas durante os quatro dias de intensa programação, reunindo comunicadores comunitários, ativistas culturais, pesquisadores e mídias independentes. E o que não faltou foi conteúdo. Cultura, democracia e direito à comunicação, diversidade, gênero, povos originários, comunidades tradicionais, direitos humanos foram alguns dos assuntos debatidos nas rodas de conversa.

“O Encontro foi um grande marco para a Agência de Notícias das Favelas. A gente conseguiu reunir pessoas de diversos países para falar de comunicação comunitária dentro de um contexto em que nunca existiu um encontro como esse”, conta o diretor e fundador da ANF, André Fernandes.
Encontro Latino-Americano de Comunicação Comunitária
Ao lado do diretor e fundador da ANF, André Fernandes. Encontro memorável.

Segundo ele, há uma expectativa de “criar uma associação latino-americana de mídia livre. A gente quer expandir, porque a comunicação comunitária é uma coisa restrita. A mídia alternativa, a mídia livre é uma coisa mais abrangente do que a comunicação comunitária. Talvez a gente abrace mais pessoas e, com isso, conseguir mais público e patrocínio para fazer algo maior na América Latina para reunir essa galera”.

O diretor do Teatro Popular Oscar Niemeyer e do Laboratório de Políticas Culturais, Alexandre Santini, destacou a importância da forma e da realização em que o Encontro aconteceu. “Um encontro colaborativo, autogestionado, com pouco recurso. Eu acho que foi um êxito, um sucesso ter articulado um encontro, inclusive com a cidade Niterói, que foi um acerto muito grande. Ter promovido uma atividade paralela, como o lançamento do livro, exibir filmes, foi muito bom, uma opção legal. Estou plenamente satisfeito com o resultado”.
Encontro Latino-Americano de Comunicação Comunitária
Alexandre Santini e seu livro sobre as políticas culturais na América Latina.

Alexandre Santini teve seu livro “Cultura Viva Comunitária – Políticas Culturais no Brasil e na América Latina” publicado durante o evento. A obra analisa e descreve, historicamente, a trajetória das políticas culturais em países latino-americanos. 

Confira o lançamento do livro: Cultura Viva Comunitária – Políticas Culturais no Brasil e na América Latina 

Além das rodas de conversa e lançamento de livro, houve shows, exibição de documentários, projeções e exposições fotográficas, batalha de MCs, grafitti, sarau literário, funk e hip hop.

Acesse o instagram @gecomterceirosetor e @agenciadenoticiasdasfavelas e relembre o dia a dia do ELACC. 

A caminho de Quito

O I Encontro Latino-Americano de Comunicação Comunitária foi uma atividade preparatória para o III Congresso Latino-Americano de Cultura Viva Comunitária, que acontece em Quito, Equador, de 20 a 25 de novembro.

“Pretendemos levar para Quito, a proposta de andar em paralelo com esse Encontro, em união. E que esse evento seja em parceria sempre com o Cultura Viva Comunitária no sentido de divulgação e visibilidade”, conta André Fernandes.
Encontro Latino-Americano de Comunicação Comunitária
Agentes culturais realizam o lançamento oficial da caravana "Rumo a Quito".

Ao final do Encontro, foi lançada, oficialmente, a caravana “Rumo a Quito”, no qual se propõe, inicialmente, obter apoio da Secretaria de Cultura de Niterói à participação dos pontos de cultura da cidade para o Congresso. “É uma iniciativa que, de repente, pode reverberar, também, para a cidade do Rio de Janeiro e outros estados e cidades a fazerem o mesmo. Uma forma de mobilizar a participação brasileira nesse Congresso”, explica Alexandre Santini.

No último dia 10, representantes das organizações culturais do Equador, Uruguai e México formalizaram o convite à Secretaria de Cultura de Niterói a participar do III Congresso Latino-Americano de Cultura Viva Comunitária.

A seguir, confira o conteúdo completo, realizado em cobertura colaborativa, sobre as rodas de conversa, acessando os links de cada assunto discutido no Encontro.


Painel: Experiências de Comunicação Comunitária na América Latina 
http://www.anf.org.br/midias-alternativas-latino-americanas-debatem-direito-a-livre-comunicacao/

Gênero, Diversidade e Comunidades: Comunicação para o empoderamento e combate ao preconceito e à opressão 
http://www.anf.org.br/roda-de-conversa-debate-preconceito-e-opressao-na-comunicacao/
Encontro Latino-Americano de Comunicação Comunitária
Discussão sobre gênero e diversidade foi um dos momentos ricos do Encontro.

Democracia em jogo: Futebol, Mulher e Mídia na América Latina 
http://www.anf.org.br/povos-tradicionais-esporte-e-mulher-em-manha-de-debates-veja-fotos/

Comunicação dos Povos Originários e Comunidades Tradicionais 
http://www.anf.org.br/povos-tradicionais-esporte-e-mulher-em-manha-de-debates-veja-fotos/
Encontro Latino-Americano de Comunicação Comunitária
Uma verdadeira aula prática ao ar livre sobre comunicação comunitária.

Direito à Comunicação no Brasil e na América Latina – Políticas Públicas e Democratização da Mídia 
http://www.anf.org.br/elacc2017-democratizacao-da-midia-em-debate-veja-fotos/
Encontro Latino-Americano de Comunicação Comunitária
A democratização da mídia foi um dos temas mais aguardados pelo público.

Memória Histórica, Direito à verdade e Comunicação Popular na América Latina 
http://www.anf.org.br/memoria-e-fotografia-ganham-destaque-no-elacc/

Comunicação, Cultura e Direitos Humanos: a voz das favelas, comunidades e periferias da América Latina 
http://www.anf.org.br/elacc-comunicadores-de-favela-se-reunem-em-roda-de-conversa/
Encontro Latino-Americano de Comunicação Comunitária
Agentes comunitários de comunicação debatem sobre o ativismo nas favelas.

Rumo a Quito – III Congresso Latino-Americano de Cultura Viva Comunitária 
http://www.anf.org.br/ultimo-bate-papo-do-elacc-discute-congresso-no-equador/

  • Documentários políticos-culturais e artísticos sob a ótica da comunicação e cultura comunitárias foram atrações em cada dia do evento: Eu só quero é ser feliz – uma breve história do funk carioca (André Fernandes); Fantasma vestido de palhaço (Alessandra Stroop); A batalha do passinho (Emílio Domingos); Deixa na régua (Emílio Domingos).
 
  • Encontro promove exposição fotográfica digital: Fotógrafos e fotógrafas independentes, que foram selecionados na convocatória do ELACC, tiveram suas fotos projetadas nas paredes do Teatro Popular Oscar Niemeyer, na noite de sexta-feira. Imagens latino-americanas se uniram às paredes do teatro e formaram um gigantesco painel fotográfico.
 
Encontro Latino-Americano de Comunicação Comunitária
Batalha das Musas e Slam das Minas em um "duelo" artístico de rap e poesia.

Acesse o link abaixo para conferir fotos e outros momentos do encontro.
https://www.facebook.com/events/1833362540249729/?fref=ts


Sobre a ANF 
A Agência de Notícias das Favelas foi criada para atender a demanda da imprensa e da sociedade que precisavam obter informações sobre que acontecia no contexto das favelas do Rio de Janeiro. A agência luta pela democratização da informação da favela para o mundo, tendo como protagonistas seus próprios moradores e estimula a integração e a troca de informações entre as favelas, com a finalidade de melhorar, por meio de formação de uma grande rede de colaboradores, a qualidade de vida do povo.

O jornal “A Voz da Favela” tem a tiragem de cinquenta mil exemplares mensais, circulando nas regiões do Rio de Janeiro, da Baixada Fluminense e Região Serrana.

Atualmente, o site conta com uma rede de aproximadamente 300 colaboradores. Quem quiser contribuir com textos e informações relevantes, precisa apenas entrar no site (www.anf.org.br) e solicitar participação.