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| Luiza Claro, estudante de Relações Públicas. |
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| Bruno Odacham, estudante de Jornalismo. |
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| Heitor Felix, estudante de pré-vestibular para Comunicação. |
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Arquivo pessoal |
Cada vez mais aumenta a importância da Comunicação capacitada nas ONGs para atuar em um cenário modificado pela crise da Covid-19. Traçar planos de comunicação mais efetivos e ao mesmo tempo se aprofundar em ferramentas de marketing digital para aplicar no Terceiro Setor são realidades para muitos comunicadores. As ações das ONGs se fortalecem a partir desse entendimento e compreensão do papel fundamental da Comunicação.
Para desdobrar mais sobre esse assunto, conversamos com Flávia Domingues, 42 anos, jornalista formada pela Unicarioca, com especialização em Inteligência de Negócios pela Coppe/UFRJ. Fundadora da Assessoria de Comunicação e Marketing EfeMais - Comunicação para Negócios Transformadores, atende empresas e ONGs que geram impacto social positivo. Entre as organizações atendidas estão aquelas que atuam na garantia de direitos das mulheres, educação e sustentabilidade.
Gecom: Conte um pouco sobre sua trajetória na Comunicação, principalmente como o Terceiro Setor despertou sua atenção.
Flávia Domingues: Tenho experiência de mais de 15 anos em comunicação. Comecei a ter contato com o Terceiro Setor já na época da faculdade. Meu primeiro estágio foi na ONG Instituto Dialog, em um projeto de empreendedorismo sustentável. Fiquei lá aproximadamente dez anos. A partir daí, despertou meu interesse em comunicação de impacto social, atuando no Terceiro Setor e também em empresas privadas.
Gecom: Em 2020, devido a pandemia, as ONGs tiveram que aderir ao uso das mídias sociais e de novas tecnologias com mais frequência do que o habitual. De que forma os comunicadores podem contribuir para o fortalecimento das ações das ONGs com esses avanços?
Flávia Domingues: Acredito que os comunicadores têm um papel fundamental para mostrar em diferentes canais de comunicação as transformações que as organizações provocam. As redes sociais são importantes ferramentas para potencializar, provocar o diálogo e aumentar o impacto social das organizações.
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Arquivo pessoal |
Gecom: Houve alguma mudança no modo de fazer Comunicação das ONGs, por causa da pandemia?
Flávia Domingues: As organizações tiverem que estar mais no digital e reinventar a forma de se conectar com os seus públicos de interesse. A pandemia impactou todo o mundo e fez acelerar alguns processos. Acredito que os comunicadores tiverem que ser mais autodidatas digitais para traçar planos de comunicação mais efetivos e ao mesmo tempo se aprofundar mais em ferramentas de marketing digital para aplicar no Terceiro Setor.
Gecom: No cenário atual que estamos vivenciando, o que você recomenda aos comunicadores no momento de planejar as ações de Comunicação da ONG?
Flávia Domingues: Nunca se desconectar da causa da organização no momento de planejar a comunicação. Buscar entender as pessoas por trás das métricas. Muito mais do que números, entenda a qualidade dos comentários, as mensagens recebidas, etc. Testar diferentes canais de comunicação e produzir conteúdo sem medo!
Então, gostaram? Compartilhe experiências como Flávia Domingues fez aqui com a gente, amplie conhecimentos e siga nossas redes sociais e mensalmente o nosso blog.
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Colocar em pauta um tema que possa mobilizar e influenciar os diferentes tomadores de decisão com a proposta de mudar uma realidade é o propósito da comunicação de causas. A jornalista e sócia-diretora da Agir Comunicação, Maria Gabriela, 46 anos, formada em jornalismo pela Universidade Gama Filho (UGF) e pós-graduada em Responsabilidade Social e Terceiro Setor pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) é apaixonada por comunicar boas ações e possui experiência na divulgação de causas infantis, como educação e cultura. Esteve à frente na divulgação de instituições sociais que trabalhavam com as causas infantis da doença renal crônica e fissura labiopalatina. Além de ser assessora de imprensa e de comunicação, Maria Gabriela trabalha voluntariamente como evangelizadora infantil no Lar Paulo de Tarso, em Copacabana, entidade mantenedora da ONG-Escola Solar Meninos de Luz.
Nesta entrevista, ela compartilha seus conhecimentos sobre a importância da comunicação de causas e o papel essencial dos comunicadores como “porta-vozes da ONG em sua vida pessoal”.
Gecom: Conte um pouco sobre sua trajetória de jornalista e assessora de comunicação em ONGs.
Maria Gabriela: Sempre me interessei por conhecer as histórias de vida das pessoas. Posso estar em uma fila ou no táxi, por exemplo, e logo puxo conversa e começo a “apurar”. Minha mãe diz que cresci “perguntadeira”, sempre querendo saber de todos os detalhes das histórias que ouvia. Uma amiga minha brinca que bastam cinco minutos de viagem para eu saber sobre a vida do motorista do aplicativo. Além disso, meu olhar e coração sempre se conectaram com trabalhos voltados para a infância.
Antes de ingressar na faculdade de jornalismo, fiz o antigo curso Normal (Ensino Médio) e comecei a dar aulas como professora da educação infantil durante sete anos no Colégio Nossa Senhora da Piedade, que ficava perto da UGF. Só comecei a trabalhar efetivamente na área de comunicação depois que terminei a faculdade. Imagina uma pessoa que gosta de se comunicar, mas era tímida! Seguir a carreira foi importante para mudar isso em mim.
Logo que terminei a faculdade, parei de dar aulas e comecei a trabalhar como assessora de imprensa. Trabalhei em duas agências de comunicação atendendo os mercados de beleza e gastronomia. Me especializei e, em meados dos anos 2000, abri minha agência com foco nessas áreas e na de saúde.
Tudo começou a mudar quando iniciei um sonho que me acompanhava desde que saí do magistério para o jornalismo: trabalho voluntário com crianças. A partir daí, naturalmente, comecei a seguir o caminho do terceiro setor. A pós-graduação em responsabilidade social me ajudou a ampliar o conhecimento e comecei a trabalhar com ONGs, o que me fez mudar o nome da minha agência para Agir Comunicação. Sem ação, não há transformação.
Gecom: Quais causas você já trabalhou como comunicadora e quais habilidades você teve que desenvolver ou colocar em prática para desenvolver as ações de comunicação nesses lugares?
Maria Gabriela: Acredito que só conseguimos comunicar de forma transparente quando nos envolvemos verdadeiramente com a atuação da ONG, com as pessoas que trabalham nela e, principalmente, com as famílias que ali estão. O comunicador, primeiro, tem que desenvolver a comunicação com as pessoas que fazem parte do contexto para depois pensar em expandi-la, a fim de alcançar novos apoiadores, voluntários, patrocinadores, doadores.
A comunicação é uma ferramenta importantíssima para alcançar novos olhares, mas somente com empatia e afeto conseguimos conectar pessoas às causas sociais. Nós, comunicadores, temos que agir e divulgar com responsabilidade.
Já trabalhei com a Fundação do Rim e SmileTrain, divulgando as causas infantis da doença renal crônica e fissura labiopalatina, respectivamente. Atualmente, trabalho em projetos de cultura, assistência social, evangelização espírita e educação, todos infantis. A ONG-Escola Solar Meninos de Luz e a Associação das Creches Conveniadas (Acreperj) são nossas causas da educação que me fazem lembrar da época que dei aula para crianças. Além de trabalhar com a divulgação nos canais de comunicação, estou começando a escrever histórias infantis baseada nas vivências que tive e tenho. Sempre pensei que um dia conciliaria o jornalismo com o universo infantil, e consegui.
O Solar atende crianças e famílias do Pavão-Pavãozinho e Cantagalo, comunidades que ficam em Copacabana e Ipanema, oferecendo educação integral a 430 crianças e em 2021 completa 30 anos. Já a Acreperj é uma associação de creches conveniadas à Prefeitura do Rio, abrangendo todo o município, criada para unificar e representar as 193 creches conveniadas.
No Solar Meninos de Luz sou assessora de imprensa e na Acreperj sou assessora de comunicação (a Agir cuida das redes sociais e da divulgação na imprensa).
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| Aula de evangelização infantil |
Gecom: Como um assessor de comunicação pode contribuir para uma ONG divulgar a causa que ela defende, principalmente se for uma questão ainda de pouco conhecimento pelo público?
Maria Gabriela: Não é só uma questão de ter uma boa rede de contatos, um bom texto, emplacar matérias nos canais de comunicação. Primeiro, temos que acreditar no trabalho que a ONG realiza. Depois, nos envolvermos. Assim, vamos conseguindo transmitir a importância do trabalho realizado pela ONG. E, mais do que conseguir espaços editoriais e relevância na web, precisamos, também, conquistar quem está perto de nós, como familiares, amigos, colegas de trabalho, para a causa. O assessor de comunicação precisa ser o porta-voz da ONG em sua vida pessoal, também. Pelo exemplo, impactamos muitas pessoas.
Gecom: O que você recomenda aos profissionais de comunicação antes de iniciarem um trabalho em uma causa que eles desconhecem?
Maria Gabriela: Que conheçam a essência do trabalho que será realizado e se identifiquem com a causa, tendo sempre em mente que nosso trabalho vai ajudar a mudar vidas. Não podemos ser frios e distantes. Mesmo nesse momento de pandemia, com boa parte do trabalho sendo feito à distância, o trabalho tem que nos tocar. Nunca vou deixar de me emocionar ao ouvir as histórias de superação, de me arrepiar com uma apresentação artística ou com a apuração feita com o gestor do projeto, por exemplo. Porque essa emoção é o fio condutor de todo o meu processo para comunicar bem...o bem.
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| Arquivo pessoal |
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| Arquivo pessoal |
O jornalista Fábio Leon, 44 anos, formado pelo Centro Universitário da Cidade do Rio de Janeiro (UniverCidade) e assessor de comunicação do Fórum Grita Baixada (FGB), não cai na zona de conforto e se lança a novos desafios. Jornalista exigente consigo mesmo, estudava tutoriais do Youtube após o expediente, dormindo quase sempre às duas da manhã. Morador de Nova Iguaçu, município da Baixada Fluminense, Fábio nos conta sobre seu envolvimento jornalístico com as mídias comunitárias e faz uma análise sobre a importância estratégica da Comunicação nas iniciativas sociais e de que forma ela será fundamental em 2021.
Gecom: Conte um pouco sobre seus trabalhos de Comunicação que o levaram a se envolver com as mídias comunitárias.
Fábio Leon: Durante a minha vida profissional, eu trabalhei em três jornais de bairro. Um como estagiário e dois como editor e jornalista responsável. O primeiro, na Zona Sul do Rio, o segundo, na região central da cidade, e o terceiro, na Zona Norte, mais precisamente na Tijuca. Na faculdade, meus professores diziam que a melhor escola de jornalismo fora do meio acadêmico são os jornais comunitários, pois eles são o termômetro dos chamados problemas sociais hiperlocais. Então, optei por seguir esse caminho. Não queria chegar em uma empresa jornalística mais estruturada totalmente despreparado. Portanto, a experiência em jornais de bairro/comunitários me parecia algo que deveria ser explorado com seriedade. Eram políticas editoriais bem curiosas, pois, ao mesmo tempo em que se concentravam em acontecimentos específicos de um bairro, como a mudança de um posto do INSS sem aviso prévio, por exemplo, tentavam também disputar com as “hard news”. Esse, pelo menos era um papel que eu tentava desempenhar da melhor forma possível e os donos desses jornais apenas se preocupavam se eu conseguiria cumprir com a pauta. As mídias comunitárias são o laboratório básico e essencial para o desenvolvimento de todo bom jornalista. É ali que a sua aptidão como profissional vai começar a ser medida.
Em 2017, depois de uma passagem de quatro anos na Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos do Governo do Estado, desempenhando, entre 2011 e 2015, o cargo de gestor social assistente do programa Territórios da Paz, que fazia um trabalho de monitoramento e interlocução entre as favelas que tinham Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) e as políticas públicas que adentravam nessas comunidades, fui chamado pra assumir a comunicação do Fórum Grita Baixada, que é uma coalizão de instituições na Baixada Fluminense que trabalha com as temáticas de Direitos Humanos, Segurança Pública e Violência de Estado. Como estava há quatro anos longe do jornalismo, eu tive que sofrer um rápido processo de adaptação e reciclagem sobre os meus conhecimentos midiáticos. Passei a ser designer, publicitário, relações públicas, repórter e assessor de comunicação. Apanhei, mas foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida.
Gecom: Com a sua visão holística e por estar em constante contato com outras iniciativas sociais, qual avaliação você faz sobre o trabalho da Comunicação dentro delas no período em que a pandemia se alastrou pelas comunidades?
Fábio Leon: Infelizmente, a pandemia, pela gravidade do que significa, deixou todos os meios de comunicação, repito, TODOS, reféns de pautas monotemáticas sobre os desdobramentos desse cenário. Mas eu acho que não poderia ser diferente. Aqui, no Fórum Grita Baixada, tivemos muitos relatos de perda de emprego, falta d´água, mutirões humanitários para a distribuição de produtos de higiene e gêneros alimentícios de primeira necessidade, mas também de operações policiais, especialmente em comunidades de Belford Roxo e Duque de Caxias. Todo mundo em pânico por causa de uma doença completamente desconhecida e ainda convivendo com a violência policial. Centenas de famílias estavam começando a passar fome nas favelas do Rio e outras áreas periféricas da Baixada. Em quase 100% das vezes, todas as notícias que chegavam eram: precisamos de ajuda. Então, deu-se início a um fenômeno interessante: a coletividade deu lugar às notícias meramente institucionais. Multiplicaram-se chamamentos para doações de produtos, doações financeiras, quem poderia emprestar um carro para ajudar na distribuição das cestas básicas ou carregar os galões de água para as famílias. Eu nunca vi tanta prestação de conta de ONGs, projetos, coletivos, entre outros, sendo publicizada. Nem o governo federal consegue ter tanta transparência assim. O próprio FGB, em parceria com a ONG Viva Rio conseguiu mapear cerca de 40 núcleos de apoio à famílias vulneráveis na Baixada por causa da pandemia. A conclusão a que chego é: as iniciativas sociais, que poderiam ser catalogadas como iniciativas individuais, substituíram o poder público. O que se viu foi uma corajosa comunicação de denúncia sobre a omissão do Estado em relação aos efeitos da pandemia nas comunidades pobres do Rio e da Baixada. Os moradores dessas áreas pobres não esperaram a ajuda de governo algum. Foi uma mobilização poderosa, onde salientou-se aquela máxima do “nós por nós”. Só umas duas semanas e meia depois, lá pra final de abril e início de maio do ano passado, é que a grande mídia começou a noticiar essa calamidade.
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Gecom: De que forma a Comunicação será fundamental para essas iniciativas em 2021?
Fábio Leon: Com a chegada das vacinas e, principalmente, com a população sendo imunizada, aos poucos voltaremos ao "velho normal" da sociedade capitalista. O cenário deixará de ser menos catastrófico e novas estratégias deverão ser repensadas ao longo do tempo, apesar de não haver necessariamente uma tendência a ser seguida. Não há, nesse momento, um certo e um errado. Os textos estão se tornando menores e os vídeos nos stories do Instagram capitalizam de forma eficaz essa economia política das mídias comunitárias. Fala-se muito da onda de podcasts que funcionou muito bem quando os públicos-alvos estavam em quarentena ou trabalhando em home-office. Mas esse mesmo público vai ser substancial depois que o “velho normal” retornar? Se bem que eles são cria do rádio que existe no Brasil desde a década de 1920, fora que as transmissões, que nem são mais tão “radiofônicas” assim, vêm sendo realizadas em canais como o Youtube. Mas para que metade do que eu acabei de dizer se concretize, as iniciativas precisam recorrer a recursos. Vários organismos internacionais que fomentavam essas iniciativas as abandonaram, quando esse governo de extrema-direita promoveu uma caça às bruxas por achar que todas elas continham um “viés ideológico” conspiratório em seus expedientes para rivalizar com sua agenda. Talvez quando esse governo for enterrado de vez, em 2022, haja um respiro, e as ONGs voltem a contratar profissionais como antes.
Gecom: Dentro de sua experiência e aprendizado, durante a pandemia, quais recomendações você faz aos comunicadores de iniciativas sociais e instituições não governamentais?
Fábio Leon: Dependendo que iniciativa seja, seria interessante basear uma parte de suas estratégias monitorando o que o poder público tem feito. Mas isso vai depender da especificidade de sua atuação e se ela quer ou pode provocar determinados debates. O online ainda vai ser parte de nosso cotidiano por um bom tempo, então não há muita escapatória. É necessário que os comunicadores tenham plena familiaridade ao usar ferramentas que promovam reuniões relativamente numerosas da maneira virtual para possibilitar a realização de lives, seminários, cursos, etc. E pensar nas estratégias de divulgação desses “aglomerados virtuais” de maneira eficiente.
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A jornalista Julianne Gouveia atua há dez anos na área da comunicação em iniciativas sociais pelo Rio de Janeiro. Formada em Comunicação Social - Jornalismo pela Universidade Cândido Mendes e especialista em Jornalismo Cultural pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), passou pela Central Única das Favelas (Cufa), foi editora do jornal A Voz das Favelas e do portal da Agência de Notícias das Favelas (ANF). Atualmente, é responsável pela Comunicação da organização da sociedade civil Spectaculu - Escola de Arte e Tecnologia. Com expertise em Social Media, desde a pandemia, também tem atuado no Núcleo de Mídias e Diálogo com o Público (Numid), no Museu da Vida, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
Na primeira publicação do blogpost de 2021 e no momento em que a vacina contra o novo coronavírus ainda é recente no Brasil, Julianne aceitou o convite para falar, a partir do seu ponto de vista, sobre as ações da comunicação nas ONGs neste novo cenário de expectativa quanto ao retorno das atividades presenciais e da adoção do formato online como uma experiência exitosa. Afinal, um trabalho responsável de comunicação salva vidas.
Gecom: Conte um pouco sobre seus trabalhos de Comunicação nas ONGs e em outras iniciativas sociais.
Julianne Gouveia: Eu atuo nas áreas de comunicação, terceiro setor, educação e cultura há mais de dez anos. Comecei como voluntária de comunicação na Central Única das Favelas, depois de ter sido aluna de um curso de audiovisual, entre 2008 e 2009. Colaborei por quase um ano com o Cinecufa, que era voltado para o audiovisual das favelas. Na mesma época, fui estudar Fotografia na Spectaculu – Escola de Arte e Tecnologia, que é uma organização que existe há mais de 20 anos, no Cais do Porto. Lá, foi um divisor de águas na minha carreira, porque fiz contatos que proporcionaram as minhas primeiras oportunidades profissionais na área da Comunicação. Em 2012, fui convidada para trabalhar na área de comunicação com doadores da instituição. Em 2014, assumi a assessoria de comunicação da instituição, responsável por toda a comunicação da casa. Paralelamente a isso, eu continuei a fazer outras coisas, buscando novas experiências. Eu sou nascida, criada e moradora do subúrbio do Rio, então, a comunicação popular sempre foi uma questão importante pra mim. Entre 2016 e 2018, fui editora da Agência de Notícias das Favelas e do jornal A Voz das Favelas. Em 2018, também ganhei um concurso de projetos de reportagem na Agência Pública de Jornalismo Investigativo e Conectas – Direitos Humanos, com foco na Intervenção Federal da Segurança Pública. Fiz uma reportagem especial voltada para entender como a violência policial afetava a saúde mental dos moradores da favela da Rocinha. Em 2020, eu comecei a trabalhar no Núcleo de Mídias e Diálogo com o Público, no Museu da Vida, da Fiocruz. Estou lá desde abril e cuido das mídias sociais do museu, pensando estratégias com a equipe. O Museu da Vida tem uma relação muito importante com esses laços territoriais com Manguinhos, com o entorno. Estamos sempre inseridos nessas questões de alguma forma.
Gecom: A vacina finalmente chegou em nosso país. Algumas ONGs modificaram sua forma de trabalhar ou suspenderam suas atividades. Em sua opinião, elas já podem voltar às atividades normais e por quê?
Julianne Gouveia: Primeiramente, é importante lembrar que esse processo de vacinação contra o coronavírus no Brasil ainda tá muito, muito no início. Nesse momento, a gente ainda não tem disponibilidade de doses nem pra atender os grupos prioritários. Então, é muito cedo para a gente pensar que essa vacinação que acontece agora vai mudar os trágicos números que estamos vendo desde março do ano passado. Ainda vai levar muito tempo, alguns meses para que a gente de fato veja mudanças. Muitas instituições do terceiro setor não pararam. Houve um boom de doações em 2020, uma grande mobilização da sociedade em prol, principalmente, das populações vulneráveis que estavam na ponta, sofrendo com desemprego, com a inflação absurda, com a alta de preços dos alimentos. Muitas organizações não pararam, e inclusive, se fortaleceram nessa época, fazendo campanhas de doação de mantimentos, por exemplo. No ano passado, eu vi também muita responsabilidade. Nós, do terceiro setor, temos que ter mesmo essa responsabilidade social com as vidas das pessoas. Poderia ter havido uma pressão para o retorno, mas não houve. Em geral, houve uma compreensão por parte dos patrocinadores, todo mundo foi muito compreensivo com a situação, todo mundo estava muito disposto a adaptar seus planos de trabalho, a realmente entender aquela realidade. É muito complicado você exigir o retorno de atividades presenciais num projeto social, que lida com vidas de pessoas em situação de vulnerabilidade, pra quem, muitas vezes, falta tudo – até água para lavar a mão, para os cuidados básicos de proteção contra o coronavírus. Na minha experiência profissional e pessoal, isso também se refletiu bastante nas duas organizações que eu trabalho. O retorno às atividades tem sido pensado com muito cuidado, com muita delicadeza, porque a gente está lidando com vidas humanas. Eu acho que varia de organização pra organização, varia com relação ao trabalho que cada um realiza, mas tudo nesse momento tem que ser pensado com muita responsabilidade. Estamos lidando com as vidas das pessoas, mais do que nunca.
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Gecom: Com a pandemia, algumas ações de ONGs foram realizadas de forma online para evitar o contágio. Com a vacina, a tendência é que algumas dessas atividades voltem a ser realizadas presencialmente. Você recomenda algum tipo de cuidado ou não é preciso se preocupar?
Julianne Gouveia: É claro que a gente vai ter que voltar às atividades presenciais com todo o cuidado quando for possível. Pelo que ouço de especialistas de diversas instituições, talvez, até o final do ano a gente possa ter uma boa parcela da população vacinada. Mas a gente ainda não sabe como isso vai acontecer - se é que vai acontecer mesmo. Esse tipo de cuidado, o uso de máscara, vai ser uma coisa com a qual a gente ainda vai conviver por muito tempo, mesmo com a vacina, apesar de muita gente já não estar fazendo uso hoje. O coronavírus é uma doença que demanda uma responsabilidade coletiva. Não é só você pegar, o problema maior é transmitir para outras pessoas. Acho que esses cuidados vão perdurar por muito tempo e, inclusive, mudar nossos hábitos como sociedade. Talvez, o uso de máscara não venha a ser integral como agora, mas, talvez, a gente possa se portar como os japoneses. Eles têm o uso das máscaras como uma coisa comum, corriqueira. Usar máscara lá não significa que você está morrendo. Às vezes, você só está com uma gripe, e você sai de casa com a sua máscara por uma questão de responsabilidade coletiva, para não contaminar outras pessoas. O que eu mais gostaria que a gente levasse dessa pandemia é exatamente essa conscientização sobre uma responsabilidade coletiva.
Gecom: Em relação ao planejamento das ações de comunicação, na sua avaliação, as práticas adotadas na prevenção do coronavírus devem ser itens a serem incluídos na hora de planejar daqui pra frente, mesmo quando o vírus estiver controlado?
Julianne Gouveia: Sobre práticas de comunicação, eu acho que vale um debate até mais abrangente. Ano passado foi muito crucial para o setor de comunicação em geral, porque para muitas empresas não foi possível "existir" presencialmente. A única maneira de "existir" foi através da comunicação no universo virtual. Então, tem sido um movimento muito importante para a gente repensar muitas coisas na área de comunicação, na necessidade que as empresas e que as organizações têm de se comunicar de fato. As organizações sociais têm que pensar muito na experiência, na realidade e nas expectativas do público-alvo, casar essas três coisas. Fazer atividades online é sempre uma ótima saída, mas pode não atingir a todos. Existem lugares mesmo no Rio de Janeiro onde há dificuldade no acesso à internet, por exemplo. São escolhas. É preciso avaliar caso a caso e fazer o possível pra não abandonar o compromisso social de atender aos beneficiários, não só por uma questão de demanda de patrocinadores e apoiadores. Não existe uma fórmula única. Nesse contexto atual, todo mundo foi obrigado a se reinventar, cada organização a sua maneira. Todos estão se descobrindo bastante neste período. Acredito que os cuidados com a prevenção do coronavírus vão perdurar por muito tempo. Então, a comunicação interna, principalmente, vai ter que versar sobre isso, reforçar sobre essa responsabilidade coletiva que todo mundo tem.
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Atualmente trabalhando em casa, em Humaitá, no Rio de Janeiro, aceitou o convite para nos conceder essa entrevista para falar sobre o impacto da pandemia no trabalho dos comunicadores em iniciativas sociais, sob o seu ponto de vista.
Gecom: Conte um pouco sobre seus trabalhos de Comunicação nas ONGs e outras iniciativas sociais.
Julia Guarilha: Minha formação é em comunicação social e trabalhei muito tempo na área empresarial, em assessoria de comunicação e atendimento a clientes. Após minha aposentadoria, me atualizei em mídia-educação e fui ser voluntária numa pequena ONG fundada por amigos (Comitê Elos da Cidadania), que atua em projetos de geração de renda, educação e cultura. Através dessa ONG, cheguei ao movimento de bibliotecas comunitárias e passei a colaborar, sempre na área de minha formação profissional.
Gecom: O que mudou em sua forma de trabalhar com a pandemia?
Julia Guarilha: Particularmente, do ponto de vista das ferramentas de trabalho, mudou pouco, pois já atuava de forma remota. A comunicação da Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias (RNBC) se dá através da internet, onde se "encontra" a equipe formada de pessoas de várias partes do país. O que mudou foi todo o contexto sobre o tema do trabalho, com bibliotecas fechadas e todo o planejamento sem sentido, fora o impacto nas pessoas, no emocional e na disponibilidade para o trabalho.
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Gecom: De uma forma geral, como você avalia o novo momento da Comunicação das ONGs nesse cenário de pandemia?
Julia Guarilha: A transferência de quase todas as atividades para o espaço virtual traz o desafio de conhecer melhor as inúmeras possibilidades da comunicação à distância e do mundo das redes sociais. São muitas novidades e caminhos diferentes para trilhar, permitindo uma comunicação melhor direcionada aos diversos públicos de uma organização social: pessoas atendidas pelos projetos, colaboradores, voluntários, parceiros, pares, comunidade etc. Então, é preciso estudar, conhecer, se informar. As bases da comunicação não mudaram muito, precisa ter foco, saber o que dizer e para quem dizer, mas houve uma revolução na forma de como dizer.
Gecom: Muito antes da pandemia, a comunicação já vivia uma mudança, assim como os comunicadores, em especial os jornalistas, principalmente no uso das mídias sociais. Em sua opinião, com a pandemia, a mudança permanece a mesma ou tem algo novo que ainda os jornalistas e comunicadores terão que aprender? E o que você aconselha aos mais novos e os tradicionais a fazerem durante e após a pandemia passar?
Julia Guarilha: Os profissionais de comunicação foram deslocados de sua função inicial com a "concorrência" de tanta gente filmando, fotografando, escrevendo, postando. Isso não é ruim. Precisa descer do pedestal, ampliar a visão, entender melhor o que acontece. A massificação e o ritmo frenético da internet também geram superficialidades. É nessa área que é possível se diferenciar. A simplificação, a falta de pesquisa, a eliminação do contraditório são mortais para um bom profissional de comunicação em qualquer área em que atue. Então, pesquise, informe-se, pergunte, desconfie.
E tem que estudar, conhecer novas experiências, trocar ideias com quem está mergulhado nesse mundo. Embora seja um campo novo, há pesquisas sobre a dinâmica das novas tecnologias e muita gente pensando e discutindo esse tema. A pandemia ampliou o acesso à informação, tem live para todos os gostos e assuntos. Antes você precisava se inscrever e ficar fisicamente a postos, agora é só se organizar para assistir on-line ou depois. Para não se perder, é bom respirar fundo e se organizar, escolher os temas que mais lhe interessam e fazer uma agenda de aprendizagens. Isso é essencial: estar aberto a aprender e não só do que vem da academia. Há muita gente que nunca pisou numa faculdade de comunicação e tem muito a dizer sobre esse tema. Então, o profissional de comunicação hoje é mais exigido e tem mais responsabilidades. E isso só valoriza a profissão.
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